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RENATA TEBALDI

Vamos admitir que Maria Callas tenha sido mesmo a maior de todas as cantoras da cena lírica já registradas, gravadas e documentadas para a posteridade. Vamos admitir que a grande diva não tenha tido seu imenso talento aumentado ainda mais por ter-se tornado um grande mito, um ícone representativo da tragédia das grandes estrelas nas quais vida artística e vida pessoal se fundem e alimentam sonhos, ilusões, paixões, ódios, invejas. Callas, inegavelmente, foi mais uma grande artista famosa que sucumbiu aos prazeres do jet-set (como muitas, nas artes em geral, antes e depois dela) cuja vida pessoal foi perscrutada, perseguida, esquadrinhada, divulgada e banalizada pelo fenômeno nascente da mídia internacional que, a partir dos anos 50, jogou no céu e no inferno qualquer grande estrela cuja imagem fosse passível de exposição para consumo popular.

Durante o período de estrelismo de Callas, houve outro grande soprano dramático, igualmente magnífico, uma diva que muitos consideraram que se igualava à estrela dominante, porém mais discreta, mais voltada exclusivamente para sua arte, afastada das manchetes dos tablóides sensacionalistas:

Renata Tebaldi (1922 - 2004)


Aos três anos de idade, Renata sofreu de poliomielite, mas conseguiu curar-se completamente. Impossibilitada de levar uma vida normal, atraída pelo canto lírico, precisou aumentar sua idade, ainda de dezesseis anos, para entrar no Conservatório Arrigo Boito, que só permitia alunas acima dos dezoito anos.

A reputação de Renata Tebaldi cresceu rapidamente, e logo ela se tornou a maior promessa do canto lírico na Itália. Foi nessa ocasião que surgiu o famoso apelido La Voce d'Angelo (a voz de anjo), pelo qual Tebaldi se tornou conhecida até hoje.

Renata Tebaldi e Maria Callas protagonizaram uma das rivalidades mais notáveis na cena lírica.
O apogeu da carreira de Tebaldi se deu nos anos 50 e 60. Nesse período, não só ela ficou famosa pelo seu timbre único e pela sua maestria nos papéis verdianos e veristas, como ficou conhecida pela rivalidade existente entre ela e Callas. Esta irrompeu, em 1951, durante a temporada do Teatro Municipal do Rio de Janeiro,

A temporada lírica de 1951 traz Maria Callas aos palcos de São Paulo e Rio de Janeiro, para inaugurar a temporada paulista no dia 28 de agosto, com a ópera “Aida". No entanto, devido a uma súbita indisposição da cantora, na última hora, o empresário Alfredo Gaglioti vê-se obrigado a substituí-la pela soprano Marina Greco que se encontrava na platéia. Callas só se apresentaria no dia 7 de setembro com a ópera “Norma" e arrebatou o público paulista dois dias depois com "La Traviata" sob regência de Tulio Serafim.No Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Callas interpreta “Norma" no dia 12 de setembro. Em um concerto lírico beneficente dois dias depois, apresenta-se cantando árias de Verdi. No mesmo espetáculo está Renata Tebaldi com quem Callas se desentende, originando uma inimizade duradoura e fã clubes rivais.Posteriormente apresenta-se em "Tosca" (24/setembro), e "Traviata" (28 e 30/setembro). Callas nunca mais cantou no Brasil.

Numa entrevista realizada nos anos 70, Renata Tebaldi diz que no auge da rivalidade entre as duas, havia duas facções que por vezes chegaram a confrontar-se fisicamente. Mas Tebaldi recorda esses tempos com saudade pois a pequenas querelas davam motivação para continuar a cantar. "Me ofendo se alguém pensa que me coloca em confronto com ela (Callas)", disse. Mas também afirmou: "A história de Callas foi construída e representou uma enorme publicidade gratuita".



Renata Tebaldi canta a ária de Mimi, "Si mi chiamano Mimi", da ópera de Puccini', "La Boheme". Gravação de um concerto realizado em Roma, em 29 de novembro de 1943, em homenagem ao trigésimo aniversário da morte de Puccini.




Tebaldi canta "Un bel di vedremo" da Madama Butterfly (G. Puccini) em 1959, regência de Erich Leinsdorf.




Renata Tebaldi ,"Pace, pace mio Dio", Verdi - La forza del destino Leonora
Teatro San Carlo di Napoli, 1958




Renata Tebaldi, "Ave Maria", Bach-Gounod




Renata Tebaldi, O mio Babbino caro, Puccini - Gianni Schichi




Renata Tebaldi, Casta Diva, Bellini - Norma




Renata Tebaldi, "Vissi d'arte", Puccini - Tosca - 1959




Renata Tebaldi - "La mamma morta" - Andrea Chenier - Giordano
Récita de 1961, em Tóquio, com direito a 3 minutos de aplausos



Renata Tebaldi fez sua última aparição no Metropolitan Opera em 1972, como Desdêmona, ao lado do tenor James MacCracken. Em 1973, ela saiu definitivamente dos palcos, mas continuou cantando até o dia 23 de maio de 1976, quando se despediu do La Scala para sempre. Após o fim da carreira, Tebaldi auxiliou vários cantores jovens, como a norte-americana Aprile Millo, mas se recusou a trabalhar oficialmente como professora de canto. Durante as últimas décadas de sua vida, viveu entre Milão e San Marino e continuou a receber e a responder com carinho cartas e telefonemas de seus fãs. Renata Tebaldi recebeu vários prêmios durante sua vida e morreu em 19 de dezembro de 2004.

Exibições: 244

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Comentário de Teatro de Revista em 8 agosto 2009 às 22:18
Oscar,
Tebaldi tinha razão em se ofender quando confrontada com Callas, que também devia ficar ofendida. Hoje se sabe que a famosa "rivalidade" não foi criação das duas, mas do público. Especialmente do temperamental, caprichoso e fanático público carioca do início dos anos 50. Culpa também de empresários espertos. Na temporada carioca, provocaram a comparação entre as duas fazendo subir ao palco duas montagens da "Traviatta". Uma com Callas, outra com Tebaldi. O público entrou no clima de Fla-Flu e deu a vitória à Tebaldi. A rivalidade estava criada e rapidamente se espalhou pelo mundo. Dois anos depois, Maria Callas daria o troco com a mesma ópera, na montagem célebre do La Scalla dirigida por Luchino Visconti. Tebaldi ficaria dez anos sem cantar no Scalla.
Não há como compará-las. São vozes e personalidades artísticas absolutamente diferentes. Até um ouvido pouco educado em ópera pode perceber isso.
Mas o que pouca gente sabe é que a relação entre as duas não era de inimizade. Admiravam-se mutuamente, embora sem fazer declarações. A "rivalidade" era, de certa forma, vantajosa para as duas. Por 10 anos, Callas dominou o principal palco italiano, o Scalla, enquanto Tebaldi reinava no Metropolitan.
Em 1961 assinaram a paz publicamente. E a iniciativa foi de Maria Callas. Tebaldi cantou, se não me engano no Metropolitan, a "Adriana Lecrouveur", de Francesco Cilea -um de seus maiores papéis. Callas estava na platéia. Tabaldi cantou lindamente a ópera. No final do espetáculo, Callas foi aos bastidores. Emocionada procurou Tebaldi e lhe disse que jamais ouvira interpretação igual.
O verdadeiro amante de ópera precisa dessas duas preciosas vozes. Renata Tebaldi é filha da clássica escola de canto italiana. Sua referência mais importante é, sem dúvida, Claudia Muzio. Por sua vez, deixou uma descendente direta, Mirella Freni. No início da carreira, a voz de Renata soava com pouco apoio, notáveis sobretudo nos vibratos inseguros. Mas a beleza do timbre compensava tudo. Tebaldi é provavalmente a mais bela voz de soprano surgida no pós-guerra. E tem os pianíssimos mais doces e perfeitos de toda a história do canto. Nos duetos, cantando com tenores de vozes viris, como Mario Del Monaco e Franco Corelli, suas qualidades eram acentuadas e ficavam mais visíveis. Os duetos do "Otello", de Verdi, com Del Monaco, são quase insuperáveis. Idem nos duetos do "Andrea Chénier", de Giordano, com Corelli. Com neste "Vicino a te", o dueto final da ópera.
abraço
Henrique Marques Porto

Comentário de Oscar Peixoto em 9 agosto 2009 às 1:01
Magnífico, Henrique, magnífico! Fico espantado com sua versatilidade! Nunca conheci alguém que transitasse com tanta desenvoltura nos mais diferentes temas...Da ópera ao teatro rebolado, da música erudita à popular, e sabe-se lá quantos trajetos mais você é capaz de percorrer! Meu amigo, conto com você sempre. Um enorme abraço.
Comentário de Henrique Marques Porto em 9 agosto 2009 às 18:25
Caro Oscar,
Você, como sempre, tão generoso e amável.
No fundo é tudo a mesma coisa -ópera e teatro rebolado. Já vi montangens de óperas que mais pareciam revistas e teatro de variedade que mais parecia melodrama. O "Gianni Schichi", por exemplo, parece mais com uma burleta do que com ópera cômica. "A Flauta Mágica" foi escrita para o teatro de variedades! E o que dizer de certas sequências de Rossini? Ou mesmo de Verdi, no "Falstaff"? Enfim, música e teatro -comédia ou drama- é uma conjunção infernal. Por isso a ópera é tão fascinante.
Agora, como é bom falar da Tebaldi, não é mesmo?
abração
Henrique Marques Porto
Comentário de Henrique Marques Porto em 14 agosto 2009 às 19:07
Oscar,
Achei a Renata Tebaldi cantando "La mamma morta", do Andrea Chénier, numa gravação ao vivo no Teatro Municipal do Rio, em setembro de 1952. O barítono, no ínício do áudio parece o Paolo Silveri.
abraço
Henrique Marques Porto
Comentário de n almeida em 25 agosto 2009 às 3:04
Olá,

Nossa amiga Helô me recomendou sua página. Ela me fez a recomendação a partir do vídeo abaixo que postei. Nele, um trecho de Sempre Libera é usado para comparações entre sopranos, muito ao gosto das torcidas delas. Veja aqui os registros:

La Traviata Battle Royale: Violettas through the ages

Se quiser arriscar seu palpite vá Neste Endereço.

Não esqueça de me mandar seu palpite.

Obrigado, e um abraço.
Comentário de Oscar Peixoto em 25 agosto 2009 às 14:55
n almeida,
Vi o filmete com as diversas intérpretes da Traviata. Você tem toda razão, no mundo lírico havia muito de torcida e competição – algo entre o futebol e o programa de auditório – o que, na maioria das vezes, nada tinha a ver com a arte pura e simples. Talvez por esse espírito competitivo, muitas divas (e divos) apresentavam-se de forma exibicionista, mais malabaristas vocais do que intérpretes de uma partitura, na qual o autor da obra explicita sua criatividade, inspiração e vontade. Obviamente, sempre há margem para as diferenças de interpretação, isto é, a carga emocional do intérprete, que imprime seu sentimento e sua personalidade na leitura do texto. Mas cantar o que jamais foi escrito, o que nunca passou pela cabeça do autor, é como fazer uma paródia sobre obra consagrada, ou como improvisar variações em torno de um tema, como no jazz.
Não é muito do meu gosto essas comparações, a não ser por mera curiosidade (o YouTube está cheio de “contests” desse tipo). Posso confrontar, por exemplo, sopranos como Maria Caniglia e Bidu Sayão, ambas virtuoses, pura emoção, fiéis à criação do compositor. Posso gostar mais de uma do que de outra, por questões de sensibilidade, mas como compará-las com uma Amelita Galli-Curci, coloratura que adorava exibir seus dotes vocais, sem compromisso com a obra? Não desmereço esse tipo de exibição (que para mim nada tem a ver com interpretação), apenas não vejo como comparar uma coisa com outra. Até podemos gostar das duas formas, mas considero que são coisas diferentes. Aliás, diga-se de passagem, aquele mi final, na quarta oitava, Verdi não o escreveu (Maria Callas provavelmente o emitia para mostrar que também tinha a nota na garganta). Mas, lembrando o que você disse, as disputas entre as prima-donas faziam-nas tentar superar umas às outras, em verdadeiros desafios que levavam as platéias (não muito ligadas à arte propriamente dita) ao delírio. Felizmente, parece que isso acabou. Hoje os cantores líricos procuram se superar aliando cada vez mais a interpretação canora à expressão teatral. São excelentes artistas de teatro que cantam de forma sublime. A ópera evoluiu.

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