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Ainda na categoria dos tenores, destaca-se uma das vozes mais privilegiadas no canto lírico, a dos tenores lírico-ligeiros. A rigor, os estudiosos distinguem os lírico-ligeiros dos somente ligeiros. De fato, em alguns casos há alguma diferença de timbre (sendo que alguns ligeiros adequam-se mais a papéis cômicos), mas, em boa parte dos casos, os chamados ligeiros também cantam papéis escritos para tenores líricos. O que necessariamente é preciso é que ambos os artistas possuam ligeireza vocal, isto é, a agilidade para cantar escalas em alta velocidade, reproduzindo, com requintada técnica de respiração, tanto os staccatos (notas destacadas umas das outras) quanto os legatos (notas ligadas entre si) com a mesma eficiência e segurança técnica.
Os tenores lírico-ligeiros têm a voz mais leve que a dos líricos ( e muito mais leve do que a dos dramáticos), mas, em compensação, conseguem atingir as notas mais agudas da tessitura vocal masculina, ultrapassando o famoso dó de peito (o “high C” na nomenclatura inglesa) que tanto impressiona as platéias. Nesses casos, se o dó de peito já levava os aficionados ao entusiasmo, estes vão à exaltação delirante quando o cantor atinge notas estratosféricas, como um ré, por exemplo. Merecidamente, diga-se, pois a emissão de notas de tal magnitude requer voz e técnica raras e privilegiadas.

Vamos apreciar algumas dessas vozes.

ROCKWELL BLAKE

Rockwell Blake (1951), americano, considerado um dos maiores intérpretes das óperas de Rossini, que exigem grande virtuosismo por parte dos cantores. Neste vídeo, Blake canta a ária Cessa di piu resistere , do Barbeiro de Sevilha, de Rossini.


Como nosso intuito é que você OUÇA as vozes e interpretações, caso não tenha paciência para esperar que o vídeo carregue totalmente (o YouTube às vezes demora demais a carregar), ouça a parte final da gravação.

Rockwell BlakeCari amicci - trecho final da ária Cessa di piu resistere



Ainda com o extraordinário Rockwell Blake, veja a interpretação da famosa ária Ah! Mes amis, quel jour de fête!, da ópera La Fille du Regiment, de Donizetti. Essa ária se notabilizou por exigir que o tenor emita nada mais, nada menos do que nove dós de peito. E todos os que a cantam assim o fazem. Alguns poucos, como no caso de Blake, emitem simplesmente ONZE! Geralmente o último dó (o nono) é emitido na penúltima sílaba da palavra “militaire”. Pois Blake canta a frase toda: “militaire et mari”, acrescentando, pois, mais dois “highs C’!


Ainda com o mesmo critério, já que são árias longas e que certamente demorarão a baixar completamente, ofereço a audição da segunda metade da ária.




Vejamos agora, uma dessas vozes extraordinárias, um tenor cuja tessitura abrange notas graves de baixo, e vai até as mais agudas de um tenor lírico-ligeiro, todas emitidas com voz plena. Trata-se aqui do fantástico tenor americano Chris Merritt (1952), cantando a “cabaletta”, da ópera Zelmira, de Rossini. O vídeo está ruim, mas é impossível ignorar essa interpretação de Merritt.


CHRIS MERRIT na Cabaletta da ópera Zelmira , de Rossini



Ouçamos agora alguns fragmentos de tenores lírico-ligeiros famosos cantando árias com notas superagudas.

Comecemos com o italiano William Matteuzzi (1957), cantando Languir per una bella, da ópera L'Italiana in Algeri, de Rossini. Matteuzzi atinge um incrível Fá agudo com voz plena.


WILLIAM MATTEUZZI


Ainda com Matteuzzi, ouçamos o trecho final da ária Credeasi Misera, de I Puritani, de Bellini, em que é atingida a nota Fá aguda.




Agora, um fragmento da mesma ária com o grande tenor sueco Nicolai Gedda (1925), (parecendo-me, porém, que não emite o Fá com voz plena, mas em falsete)



NICOLAI GEDDA



Até o saudoso Pavarotti emitiu essa nota acutíssima, mas também utilizando o mesmo recurso do falsete, com uma sonoridade quase feminina. Vamos ouvi-lo em um fragmento da mesma ária.


LUCIANO PAVAROTTI


Por fim, se quiserem ver integralmente essa cena de I Puritani, em uma boa filmagem no YouTube, assistam-na com o tenor peruano Juan Diego Florez (1973). Reparem que no momento crítico em que os tenores anteriores atingiram o Fá, Florez emite “apenas” um Dó sustenido. Todavia, há controvérsias se Bellini escreveu mesmo o Fá ou se foi Dó sustenido (com a palavra os especialistas).

Juan Diego Florez - I Puritani - Credeasi Misera

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Tags: Chris Merritt, Juan Diego Florez, Luciano Pavarotti, Nicolai Gedda, Rockwell Blake, William Matteuzzi, canto lírico, tenor, ópera

Comentário de Helô em 10 fevereiro 2009 às 20:56
Oscar querido
É impossível ignorar e esquecer a interpretação do Chris Merritt no vídeo que você já havia me apresentado e que muito me impressionou. Já conversamos sobre o post, mas nunca é demais reforçar sua belíssima contribuição aqui no Portal. Mais uma vez, parabéns!
Beijos.
Comentário de peter baard em 12 fevereiro 2009 às 19:06
Oscar, what voice has William Matteuzzi?
Comentário de Oscar Peixoto em 14 fevereiro 2009 às 17:05
Peter, Matteuzzi is a tenore leggero (in italian)
Comentário de Laura Macedo em 18 fevereiro 2009 às 1:08
Meu amigo Oscar.
Que primor de post! Imagino o trabalho que deu para montá-lo com textos, vídeos, músicas e fotos. Serviço completo, como falamos no popular: "cabelo/barba e bigode".

Estava com minha agenda cheia nas duas semanas passadas, compromissos familiares e o V FENAVIPI (Festival Nacional de Violão do Piauí) que terminou neste final de semana, comprometendo, assim, meu tempo para dedicar-me as suas aulas sobre ópera :))

No universo operístico tudo é novidade para mim... Mas como a aprendizagem é um processo gradativo, cumulativo...quem sabe um dia venha a fazer comentários pertinentes a temática :))

Parabéns e um grande abraço.
Comentário de Henrique Marques Porto em 18 fevereiro 2009 às 16:49
Caro Oscar,
A maioria canta essa nota difícil no falsete mesmo. O Gedda, mais esperto, usou aparentemente (não tenho certeza), um "falcettone" ou "falcettone rinforzzato" -recurso muito utilizado pelos tenores do bel canto, do otoccento, que mascara o falsete com maior apoio de diafragma. O pior de todos é o Pavarotti, que deve ter se envergonhado da nota di femmina que emitiu. Ele conseguia fácil quando era mais jovem. Já Diego Florez vai tranquilo na nota.
Ouça aí o Giacomo Lauri-Volpi, que não era um tenor lírico, muito menos ligeiro, mas jogava em todas as posições ("um tenor deve saber cantar todo o repertório para a sua tessitura", dizia ele), estudando o final de "Credeasi Misera". Sem falsete, um recurso que ele abominava e fazia questão de distinguir do pianíssimo. No entanto, na juventude Volpi também usou o falsete. Sobretudo quando recuperou o repertório oitocentesco nos anos 30. Com o amadurecimento, apurou a técnica abandonou o falsete. Não poupava Gigli e Tagliavini de críticas por abusarem do recurso. Lauri-Volpi dizia que ou se tem a nota ou não. Se um tenor não alcança esse "Fá" destruidor de goelas que cante outra coisa. Concordo com ele. Emitir notas altas abaixando a tonalidade original ou usando falsete não vale. Pior, soa feio.
Abraço
Henrique Marques Porto
Comentário de peter baard em 11 março 2009 às 21:37
Hello Oscar, again you made wonderful work. Normally I don't like very much the light tenor, but what I hear here from JD Florez is outstanding: this man sings with an internal power that expresses so much emotions. Extrordinary! Tomorrow I will try to find the cd in the shop!
Thank yo my friend!
Peter

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