Talvez o principal autor do tema sociedade em rede (sobre o qual escreveu a fundamental trilogia Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura), o sociólogo espanhol Manuel Castells, que já esteve diversas vezes no Brasil, (veja aqui Roda Viva com ele, em 1999), fez, há dois meses, um pronunciamento aos jovens manifestantes de Barcelona – os chamados Indignados – que merece atenção (veja a íntegra aqui). Numa fala curta e objetiva, ele toca nos dilemas cruciais enfrentados pela democracia representativa neste começo de século.
Para Castells, “o controle da informação e da comunicação foi sempre a forma fundamental de exercício do poder (…) Na medida em que há uma mudança organizativa e tecnológica no entorno da comunicação, mudam também os processos de comunicação, e como consequência as relações de poder”.
Hoje, “existem possibilidades infinitamente maiores que havia no espaço tradicional dos meios de comunicação de massa. Pode-se organizar redes horizontais de comunicação interativa, que chegam à sociedade através de pessoas, interesses, valores e grupos sociais não representados pelos sistemas corporativos de poder”. Como consequência, muitas instâncias de representação podem se tornar obsoletas, pois “ampliou-se extraordinariamente o espaço de auto-representação das pessoas na sociedade”.
O resultado é as pessoas reconhecerem um maior poder em suas mãos: “de repente, as pessoas percebem que não estão sozinhas. O que sentem, o que pensam, outros também sentem e pensam. E quando não estão sozinhas, as pessoas são mais fortes”.
Essas transformações coincidem com uma crise da democracia representativa em todo o mundo: a distância entre representado e representante aumenta, e os partidos políticos vão se tornando organizações descoladas dos eleitores e voltadas apenas para seus próprios interesses. Os partidos, naturalmente, rejeitam a mudança, pois “ela vai contra seus interesses como grupo profissional e grupo político”. Assim, “se não houver uma pressão social, não haverá mudança. E a mudança social inicia com as mentes: o que muitas pessoas estão fazendo é mudar a forma de pensar de si mesmas e das demais, pensar diferente e pensar juntos”.
Castells elenca três temas que considera básicos para essa proposta de reconstrução da democracia. Em primeiro lugar, a comunicação, concretizada hoje pela internet e pelas redes móveis, elevada a direito humano fundamental. Traduzindo: o acesso à internet precisa ser universal.
O segundo ponto é a reinvenção de “instituições e processos democráticos”, de forma concreta, promovendo-se as minorias políticas, estudando-se a possibilidade de contabilizar votos nulos e brancos, exigindo-se a possibilidade de se eleger pessoas não filiadas a partidos, ente outras medidas. As enormes possibilidades da internet também deveriam ser utilizadas para processos participativos e de consulta.
Mas o principal, para Castells, é a criação de novas formas de democracia a partir dos processos em rede, dos debates em curso:
“O mais importante não é o que se propõe, mas como se propõe. Não é tanto o que se faz, mas como se faz. Uma democracia futura não sairá de documentos, por mais completos e bem formulados que sejam. Sairá de práticas coletivas, que vão experimentando novos mecanismos de deliberação, representação e decisão. Vamos aprendendo no caminho. Esse é o método, diria eu, político e científico. Através de experiências, pois é muito difícil que alguém invente um sistema novo, que substituiria o outro sem que haja debates e sem que as pessoas saibam exatamente o que está acontecendo”.
O resultado: “a substituição da democracia dos partidos pela democracia das pessoas”.
Como se vê, dá bastante pano pra manga. Em outro post detalho algumas das minhas ideias sobre pontos levantados pelo Castells, em especial sobre os partidos e possíveis mudanças nos processos democráticos (e para quem quiser se aprofundar, para além da íntegra do discurso vale ler também o que o Pedro Abramovay tem escrito sobre Wikidemocracia no Observador Político – site criado pelo ex-presidente FHC e que pode se tornar, na prática, uma excelente ferramenta desta nova política que o Manuel Castells brilhantemente discute.


textos de Daniel De Bonis
Posted on 26/07/2011 by DB
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