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Passadas as eleições, parece que a ferida aberta ainda sangra e teima continuar expurgando o que se oculta no seio daqueles que hoje se dizem os representantes do povo. Aborto e religião foram temas que pautaram os assuntos de debates, editoriais jornalísticos e programas de TV. Até o homem do Vaticano meteu o dedo, em prol do candidato da Santa Sé paulista, referendado por um bispo que tem raízes vivas na ditadura. O País que viu florescer um período de repressão e rapto dos direitos do povo agora assiste a declarações que não se toleram mais, vindas de quem deveria resguardar, no mínimo do bom senso, os valores sociais e o respeito das minorias.

 A Câmara é o lugar de representação do povo. É lá que estão aqueles que foram eleitos para respaldar os direitos de todos e a igualdade de raça, religião e seja mais lá o que for. Na Câmara e no Senado, não deve haver espaço para pessoas com ideias que vão contra os princípios da igualdade e do respeito de quem quer que seja. Há sim, o direito à liberdade de expressão. Desprezar isso é ignorar que vivemos num país livre, democrático e que tenta se afastar de qualquer sentimento de preconceito e de racismo vivido por nós durante alguns séculos. Não há espaço, no Espaço de Representação do Povo, para declarações pessoais que estampam cunho preconceituoso, racista e que ferem princípios republicanos. No entanto, o que se tem percebido, nos últimos dias, são declarações que devem ser repudiadas e condenadas por todos. Declarações como as do deputado federal Jair Bolsonaro merecem mais do que repúdio. São exemplos de opinião pessoal que parecem representar o senso comum. Demonstram o desrespeito para com negros, por insinuar que ser negro é viver em promiscuidade. Declarações torpes vindas de pessoas que se dizem “representantes” do povo não podem passar ilesas da condenação da sociedade. Jair Bolsonaro não é digno de se autodenominar representante do povo na Câmara Federal. O povo não pode se ver representado por quem não tem respeito para com o próprio povo. Jair Bolsonaro, além de representar ideais de uma minoria que rumina preconceito e destila a podridão que se esconde no seio daqueles que não aceitam a ascensão dos que um dia estiveram na miséria e fadados a morrer nos guetos da pobreza e do abandono, também é um péssimo exemplo para representante do povo. Jair Bolsonaro não é digno do povo e não é digno de se sentar no lugar onde o povo é representado.

Na esteira do pensamento de Bolsonaro, vem o pastor Marco Feliciano da Assembleia de Deus, hoje deputado federal. Para Marcos Feliciano, os africanos, portanto, os negros, são pessoas amaldiçoadas porque seus ancestrais foram amaldiçoados por Noé e os gays têm “sentimento de podridão”. Marco Feliciano, o pastor pop dos programas dominicais, parece revelar, a exemplo de Bolsonaro, o lado preconceituoso, intolerante e racista. Essa é opinião de Marco Feliciano. Opinião pessoal, mas que ofende africanos e gays. Para esses, o respeito lhes é devido. Para aqueles, Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, resta o dever da retratação ao povo. Em se tratando de Marco Feliciano, um homem que prega tanto o amor de Deus para os fieis, suas declarações parecem contradizer aquilo que de púlpito há muito declarara. Há dois Marco Feliciano, o pastor pop dos púlpitos e o deputado racista e preconceituoso? A qual Marco Feliciano o povo elegeu?

Os da Câmara e do Senado devem dar o exemplo. Não há espaço ali para declarações das do tipo de Jair Bolsonaro e Marco Feliciano. Eles são o que são, mas não devem deixar que o que pensam pareça o pensamento do senso comum. O povo merece o mínimo de respeito. A esses “Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Eis que faço coisa nova, que está saindo à luz; porventura, não o percebeis? Isaias 43:18-19”.

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