Que o brasileiro anda cansado de pagar impostos e não receber a contrapartida do Estado todo mundo sabe. Que brasileiro anda farto de corrupção ídem; o que ninguém sabe é o que significam as tais marchas pela ética, pela moralidade, etc. E lá precisa ter marcha para tanto? O que é ética? O que é moral?
Observo que a indignação indistinta se dá mesmo quanto às indignações alheias e que movimentos surgidos não se sabe de onde ou sob que batuta defendem o óbvio de uma forma não tão óbvia assim. De repente, de toda a parte surge alguém dizendo com ares de sapiência, que a revolução que começava nas esquinas e nas rádios hoje começa no facebook, no twitter e outras páginas de relacionamento público. Já há quem proponha a censura-um AI5 digital como se diz. Mas censurar exatamente o que? O fato é que, como nas esquinas, nas rádios ou em qualquer lugar, a manipulação sempre existirá e a internet não difere, em nada, da vida, exceto pela agilidade com que se consegue coptar um grande número de pessoas em prol de idéias e ideais ou... como bucha de canhão para um propósito menos digno e decoroso.
Todos estão cansados do egoísmo do poder público, que só pensa em si e não na coisa pública e, assim, flagela o povo; mas o povo também está tão flagelado que só se preocupa consigo individualmente e não com o público. Marchas assim unem um enorme grupo sob um conceito vago e abstrato, uma massa onde cada um, individualmente, possui sua indignação e seu conceito particular de ética e moral; mas será que paramos para pensar coletivamente?
Li trechos do depoimento da mãe de um desaparecido político defendendo a criação do Comitê da Verdade e não recordo, ultimamente, de ter conversado com sequer uma pessoa que saiba do que se trata. Mas bem, resgatar documentos históricos e trazer a lume a barbárie da ditadura no Brasil, não é ético, não é moral?Tá, mas então estamos marchando pelo que mesmo? Quero, citar o post de um grande amigo :"O filósofo Jean-François Mattéi denuncia no seu De l'Indignation o absurdo de uma sociedade em que a indignação não se volta mais contra a injustiça, mas preferencialmente contra as indignações dos outros.O problema é quando os indignados passam a se indignar com as indignações dos outros, e não com as ofensas efetivas feitas à justiça. Eles consideram indignos os sentimentos de seus adversários e, logo, os adversários em si." Vejam bem, não estou indignada com a indignação alheia, mas gostaria de saber do que exatamente trata esta indignação. Ainda, gostaria de saber o quanto de solidariedade existe em tais movimentos. Outro dia escrevi uma crítica sobre os Juizados Especiais e li o comentário de alguém que dizia ser muito fácil falar do utro lado do balcão. Eis um exemplo da indignação estúpida, já que, se está difícil para quem está atrás do balcão também é porque lógicamente o serviço não anda bem. E se não anda bem, deveria melhorar para ambos os lados do balcão. Não são pensamentos adversos e tampouco somos adversários. Poderíamos mesmo levantar uma única bandeira; mas tal implicaria reflexão. É o que proponho. Como um bichinho político que sou (como todo o ser humano e não me venha dizer que não), fico encantada com a participação popular; apenas me sobressalta pensar o quanto tenha ela de efetivamente popular, o quanto tenha ela de refletidamente condoída com o coletivo e quanto pode meramente consistir em uma pseudo união de raivas privadas. A propósito, ontem assisti O Planeta dos Macacos; uma coisa puxou a outra, não me pergunte porquê....aquela horda de macacos atravessando a cidade, alguns morrendo no caminho, outros seguindo em frente e tanta revolta que começou a se agitar na cabeça de um macaquinho de cérebro privilegiado e a partir das próprias dores. Lembrei das tais marchas, lembrei dos últimos acontecimentos no país e senti uma crescente inquietação que acabou em angústia literária. Alguém traçou um paralelo entre o Movimento da Legalidade e nossos "movimentos-marchas" e alguns jornais espúrios lançaram a comparação dentre o Jânio e a nossa Presidenta - Varre, varre vassourinha....a limpeza do país. Tanto integralismo, tanto ufanismo me trazem de volta priscas eras e dolorosas lembranças. O Ministro principal do regime nazista dizia que "uma mentira dita cem vezes torna-se verdade".Logo; cuidado,grandes ditadores conhecem bem a importância da imprensa e antes de comprarmos uma verdade ou aderirmos a um movimento sempre é bom indagar-lhe o conceito; mas, principalmente se não estamos contribuindo com nosso quinhão para o resgate de governos nocivos e novos ditadores não tão novos assim.
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