Os biógrafos nos contam que Noel Rosa gostava de autocaricaturar-se. E sempre de perfil, exagerando o traço ao chegar no queixo, fanzendo graça com a própria deformidade.
Há quem garanta que o samba Mentirfoi feito depois de ser apresentado a uma admiradora, numa festinha em casa de família. Conhecendo-o apenas de nome, a moça teria ficado desapontada. Esperava um compositor bonito como suas músicas. Deixou escapar um "oh!", ao que Noel, sem perder o controle, indagou:
- Sente alguma coisa?
- Sim - respondeu a moça, um tanto embaraçada. - Uma pontada aqui, mas já passou.
Essa era uma das maneiras como Noel reagia a quem notava seu problema na face. A outra podia ser, também, como na dedicatória à cantora Yolanda Rhodes, a Yola, uma linda mulher que conheceu na Rádio Guanabara e que ficou impressionada com um novo samba dele.
Noel cantava os versos tristes e algo nebulosos da belíssima composição a que deu o nome de
Cor de Cinza.Yola pediu-lhe a letra, Noel escreveu-a numa folha de papel e, no final, anotou: "Para que você não se esqueça da feiúra do amigo Noel." A linda Yolanda Rhodes não o esqueceu.
COR DE CINZA (Noel Rosa)
Samba-canção. Primeira gravação em 1955 com Aracy de Almeida (música de 1933)
Com seu aparecimento
Todo o céu ficou cinzento
E São Pedro zangado
Depois, um carro-de-praça
Partiu e fez fumaça
Com destino ignorado
Não durou muito a chuva
E eu achei uma luva
Depois que ela desceu
A luva é um documento
Com que provo o esquecimento
Daquela que me esqueceu
Ao ver um carro cinzento
Com a cruz do sofrimento
Bem vermelha na porta
Fugi impressionado
Sem ter perguntado
Se ela estava viva ou morta
A poeira cinzenta
Da dúvida me atormenta
Nem sei se ela morreu
A luva é um documento
De pelica e bem cinzento
Que lembra quem me esqueceu
Cor de Cinza de Noel Rosa
Composição de 1933.
Intérprete: Aracy de Almeida
(caso não consiga visualizar o vídeo acima, clique aqui)
Em toda a obra de Noel não há composição de versos tão obscuros, tão indecifráveis. Aparentemente, ele conta uma história de amor. Baseado em informações de Pará, Almirante vai concluir que a inspiradora foi Julinha. Pouco provável. Há certa finura na mulher de luvas de pelica cinza que não combina bem com a extravagante Júlia Bernardes.
Laura Macedo nos informa que, segundo Jorge Caldeira, quando Julinha bebia, não havia cristão que segurasse a barra: tentou se afogar num riacho, quebrou o violão de Noel durante uma discussão e até veneno tomou.
O poeta mineiro Paulo Mendes Campos assim escreveu sobre Cor de Cinzana Revista Manchete em 1974.
Cor de Cinzaé uma história fora de dúvida enigmática, enevoada, cuja origem há de morrer com Noel.
"Não durou muito a chuva e eu achei uma luva depois que ela desceu..."
Noel Rosa (Ilustração Luquefar)
Cor de Cinza
Jards Macalé
Lumiar Discos - 1991
(caso não consiga visualizar o vídeo acima, clique aqui)
Gravações:
Aracy de Almeida com Orquestra
Continental LPP 1955
Marília Baptista com Orquestra
Nilser NS LP 1963
Grupo Rumo
Independente - LP 1981
Zezé Gonzaga e Conjunto Época de Ouro
Fenab 104/105 - LP 1982
Jards Macalé
Lumiar Discos - 1991
***** *** *****
Agradecimentos:
À amiga Laura Macedo, pelas primeiras informações sobre Cor de Cinza.
Fontes:
(1) Noel Rosa, uma biografia
João Máximo e Carlos Didier
Editora UNB - 1990 -
Edição comemorativa do 80º aniversário de nascimento de Noel Rosa (1910-1937)
Cap. 41 - No Picadeiro da Vida, pags 420 e 421
(2) Site Noel Rosa – 100 canções para o centenário
Exibições: 105
Tags: Carlos_Didier, Cor_de_Cinza, João_Máximo, Laura_Macedo, Noel_Rosa
Comentário de Laura Macedo em 4 dezembro 2011 às 19:32 Gilberto,
O post ficou ótimo, parabéns. Grata pelo agradecimento, mas o mérito, sem dúvida, é todo seu.
A ilustração de Luquefar caiu, literalmente, como um luva :))
Seria interessante você publicar, também, no Grupo Noel Rosa, do Brasilianas.
Como o vídeo está com problemas para abrir, deixo o áudio da Aracy de Almeida e Orquestra Continental (LPP 10) - 1955. Noel compôs "Cor de Cinza" em 1933.
Beijos.
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