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O Cheiro do Nosso Lugar - Texto de Eutímio Pimentel

O CHEIRO DO NOSSO LUGAR
O cheiro do nosso lugar, sempre nos leva a passados recentes. Sempre que voltamos a esses lugares, nos sentimos invadido pelo doce perfume de infância, que ficou no fundo do poço do passado. Ainda me lembro, nos meus dias de infância,quando acordava pela manhã com o doce cheiro da rapadura,cozinhando nos tachos de cobre do engenho. E, depois de lavar o rosto e escovar os dentes, tomar um café às pressas, era descer em desembalada carreira rumo ao brejo, e ao doce do mel e da rapadura que saiam quente do tacho ou da gamela.
Grandes dias de criança feliz e sem nenhuma preocupação, vivi durante os primeiros dez anos de minha infância! As moagens de cana, que geralmente levavam de dois a três meses,quando se moia a cana pra fazer a rapadura para ser vendida na feira livre da cidade,era pra mim o melhor acontecimento do ano.
Pois tinha o que mais criança gosta! Doce em forma de caldo de cana, rapadura, puxa e melaço de cana. O sonho de todo menino livre e solto no sertão. Descrever o que era o movimento da casa de engenho durante esses dias, que para mim tinha algo mágico, é difícil hoje, com os meus olhos e mente de um adulto. Mas, toda vez que vou lá – no que sobrou – ainda sinto o cheiro doce daquela labuta!
E sou invadido por uma terna saudade, e por um vazio de não ter sido consciente da felicidade que ora apresentava-se nos meus tenros dias. Ver a cana sendo moída nas moendas de ferro, o canto alegre dos homens em sua labuta,o caldo da cana escorrendo para a bica que o acolhia.Caldo que era enviado direto para o tanque de cimento,através de um cano que tinha sido improvisado,para que não se precisasse carregá-lo em latas feitas de latão.
O movimento dentro da casa de engenho, com o ponteiro,que corria de um lado pra outro,ora tirando a espuma da garapa que estava a cozinhar no primeiro tacho,ora vendo como estava a do ultimo tacho- o tacho do ponto,que era o último antes do mel grosso,com seu doce cheiro,ser batido até o ponto que dava a rapadura.A meninada correndo,pra raspar a sobra da rapadura, que ficava grudada nas paredes de madeira da gamela,a parte mais gostosa e puxenta.A correria pra lavar as formas no córrego de água,que era represado no fundo da casa com essa finalidade.As brincadeiras e traquinagens que me rendiam muitas broncas e reprovação.O vai e vem frenético dos carregadores de cana,que vinham do canavial com os jumentos bufando com sua carga.
O prazer de subir nas mangueiras, pra colher as mangas doces e saborosas – que hoje não tem o mesmo sabor ! Roubar cana no brejo vizinho, mesmo com o de meu pai com tarefas e mais tarefas da melhor cana do lugar. Subir nos coqueiros com altura que sempre causava vertigem, pra tirar o côco verde, pra ser cozido dentro dos tachos – geralmente no tacho do ponto – que ficava delicioso, com o doce sabor do melaço que impregnava na sua polpa macia. A chafurdação nas lamas dos córregos que atravessavamtodo o brejo, onde sempre tinha uma vitima, que era sacaneado pelos demais. Geralmente um pobre menino que vinha da cidade, pra passar alguns dias na casa da gente ou na de um colega.
As brincadeiras na chuva, que caiam nos finais de tarde, onde corríamos feitos bichos soltos. Mesmo com todo o raiar das mães, com sua eterna preocupação pela saúde de seus rebentos. As brincadeiras com turbinas imaginárias que fazíamos com paletas de casca de cana, fincadas sobre um rolete de tronco de bananeira. Que eram colocados sobre um eixo, sobre duas forquilhas em cada margem do córrego,que a força da água girava em grande velocidade. Tudo isso, e mais a criatividade de menino nascido e criado na roça – o que muito me orgulha – e que me fez um adulto muito mais feliz! Mesmo com todo revés que tenho encontrado na vida.
Porém, hoje quando volto por lá, e vejo o abandono de tudo, as ruínas do que restou do engenho, a casa de engenho onde era cozinhada a garapa,seus tachos carcomidos pelo tempo.A fornalha,maravilha da “engenharia matuta”,destruída,tombada como um soldado vencido pelo inimigo tempo. O silencio que me faz escutar as vozes que enchiam de algazarra o ambiente frenético das pessoas que estavam sempre na labuta.
A tristeza dói fundo, na alma daquele menino que ficou escondido no labirinto dos anos, e um misto de saudade e melancolia me invadem.Como queria não ter crescido ! Como queria voltar no tempo, pra com toda a certeza que tudo passaria, aproveitar melhor aqueles dias que foram os melhores da minha vida !

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