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Se já vínhamos percorrendo caminhos delicados e acidentados, agora adentramos floresta espessa, com fortes luzes e muitas sombras, repleta de maravilhas, mas também plena de perigos. Aqui começam a luzir grandes estrelas cujo brilho muitas vezes ofusca o bom senso e, não raro, o bom gosto.

Astros de primeira grandeza, muitas vezes cercados de vaidades proporcionais à sua exuberância vocal, à medida que sobem a escala dos dotes líricos mais e mais sensibilidades se aguçam e disputas se acirram, tanto entre as estrelas quanto entre seus seguidores, até chegar-se à feérica explosão dos sopranos, as prima-donas, as estrelas maiores da constelação lírica.

O termo tenor provém do latim tenere, que significa sustentar. Na música medieval, era a esta voz que era atribuída, via de regra, a linha principal do canto. Por esta razão, o intérprete deveria ser capaz de "sustentar" as notas enquanto as outras vozes, mais graves, realizavam floreios vocais.

A categoria dos tenores também é controvetida no que respeita a classificações. Podemos classificá-los, entretanto, sempre utilizando o critério da voz mais grave para a mais aguda, como tenor dramático, tenor lírico, tenor lírico-ligeiro, tenor ligeiro, contratenor.

Como sempre, certamente haverá alguma discordância, se este ou aquele tenor se enquadra nessa ou naquela classificação. Isso porque também aqui, como no caso dos baixos e barítonos, há artistas capazes de cantar em mais de uma tessitura vocal, o que leva os apreciadores a discussões intermináveis.

Comecemos pelo tenor dramático. Como o adjetivo já dá a entender, trata-se aqui de voz adequada a papéis de alta densidade dramática, que exigem do cantor grande força e volume vocais. São vozes amplas com timbres baritonais e bom desenvolvimento nos registros médio e grave. Há tenores dramáticos até capazes de cantar papéis escritos para barítonos.
Nesse tipo de tessitura destaca-se o heldentenor (tenor heróico), cuja potência vocal lhe permite cantar em meio a grande massa orquestral, como no caso das óperas wagnerianas.

Apreciemos algumas dessas vozes excepcionais de heldentenor:

SIEGFRIED JERUSALEM (alemão, 1940)
Winterstuerme (Die Walkure – Wagner) - Vienna State Opera, 1979



LAURITZ MELCHIOR (dinamarquês - 1890/1973)
In fernem Land (Lohengrin – Wagner)


Ainda com Melchior, a bela canção Because, de Guy d'Hardelot



Eis agora um bom exemplo de tenor dramático capaz de cantar em tessituras graves e agudas.
PLACIDO DOMINGO (espanhol, 1941), um artista completo, regente, pianista, grande divulgador do bel canto.
Domingo canta neste vídeo a ária Dio mi potevi, do Otello de Verdi.



Para quem quiser confrontar essas vozes e interpretações dramáticas, aqui podemos ver o grande tenor canadense JON VICKERS (1926) cantando a mesma ária.



Finalizemos esta página vendo um belo tenor dramático da nova geração.
JONAS KAUFMANN, (alemão, 1969)
La fleur que tu m'avais jetee , da Carmen de Bizet

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Tags: Lauritz Melchior, bizet, canto lírico, jon vickers, jonas kaufmann, placido domingo, siegfried jerusalem, tenor, verdi, wagner, Mais...ópera

Comentário de Henrique Marques Porto em 8 janeiro 2009 às 21:42
Caro Oscar,

Para não ficar vagando por essa floresta espessa (e é mesmo), como você chamou o universo dos tenores, e para não falar de Caruso, Lauri-Volpi, Del Monaco, Corelli ou Bergonzi vou dar atenção para um dos exemplos aqui postados em vídeo. Esse Jonas Kaufmann é uma gratíssima revelação no momento em que a geração formada nos anos 60 e liderada pelo trio Pavarotti, Domingo e Carreras se retira sem deixar peças de reposição. Não é a toa que Placido Domingo vem adiando a aposentadoria e com cabelos brancos ainda é nome certo no Metropolitan e outros palcos.
Revelação tardia também. Jonas Kaufmann é um tenor singular. Canta desde bem jovem, mas só se projetou internacionalmente nos últimos anos, e chega quarentão ao estrelato. Corre em raia própria, longe das apaixonadas comparações tão comuns em ópera.
Esse rapaz canta praticamente quase todo o repertório para tenor. Das levezas do Elixir do Amor, de Donizetti, ou do Cosi Fan Tutti, de Mozart, à dramaticidade de um Florestan, do Fidelio, de Beethoven, aos papéis wagnerianos. Canta muito bem ainda os repertórios líricos italiano e francês. Ótimo no Wherther e no Des Grieux, da Manon, ambas de Massenet. Da mesma forma se sai bem no repertório clássico italiano. O Cavaradossi, da Tosca, o Rodolfo, da Bohéme, de Puccini, ou no Alfredo, da Traviatta, ou ainda o Conde, do Rigoletto, de Verdi. E para não ficar barato, canta com qualidade o repertório de câmara –cantou e gravou canções de vários compositores e até alguns dos dellicados e dificílimos lieder de Schubert. Essa evolução é recente, ocorreu nos últimos dez anos. Em 1998 sua voz era bem menos robusta, menos expressiva e não apresentava as qualidades de hoje. Veja-o cantando Mozart em Milão, em 1998 (http://www.youtube.com/watch?v=QXEjZqYhgQQ). Cantava papéis para tenor lírico-ligeiro. Hoje, nada parece escapar à bela voz de Kaufmann. Mas parece que ainda não trabalhou bem o repertório dramático italiano –Aida, Trovador, Baile de Máscaras, os títulos do verismo, etc. Como não se aventurou no Otello, de Verdi –um desafio até para os tenores wagnerianos. Nas resenhas é ainda apresentado como heldentenor. Mas foge ao padrão, pela amplitude e variedade do repertório. Sendo alemão é curioso notar em sua voz inflexões típicas da escola italiana de canto. Não tenho informações sobre seus estudos iniciais, mas teve aulas com o baixo alemão Hans Hotter e com o tenor americano James King –ambos da inflexível escola alemã de canto.
Repare que há semelhanças entre as vozes de Jonas Kaufmann e de Jon Vickers, notáveis sobretudo nos pianíssimos e em algumas notas atacadas. As técnicas –inclusive de respiração e impostação- são as mesmas. Vickers também cantou o repertório lírico no início da carreira, mas logo o abandonou.
Apesar da técnica segura, Kaufmann deixa a suspeita de que confia demais em seu talento e se permite ousadias. A voz, o belo porte e a pinta de galã vem lhe garantindo tratamento de pop star. Os alemães e grande parte da Europa e Estados Unidos já o veneram. Até documentário sobre os primeiros anos de sua carreira já produziram. "The first!", "the best!" é o mínimo que escrevem sobre ele os muitos fãs no YouTube.
Ou irá muito longe ou sua voz abaritonada em breve perderá o brilho nos agudos e o deixará no meio do caminho para a fama. Vamos torcer para que tenha alcançado a maturidade (Pavarotti só ficou célebre também por volta dos 40) e seja, além de talentoso, um artista inteligente.
Abraço,
Henrique Marques Porto
Comentário de Henrique Marques Porto em 8 janeiro 2009 às 22:15
Oscar e amigos,
Vejam Jonas Kaufmann nessa montagem parisiense da Traviatta, em 2007, com Christine Shäeffer e José Van Dan no elenco. É o início do segundo ato, com a ária e cabaletta "Dei miei bolenti spiriti". A montagem modernosa me agrada, mas o diretor abusa. Reparem que o tenor, além de cantar, ainda tem que caminhar uns cinco quilômetros pelo palco! O esperado agudo final da ária é emitido no fundo do palco, com o intérprete andando rápido e de costas para o público, com perda de uns 40% do volume. Mas, a montagem é bem interessante -uma Violeta com visual Edith Piaf e comportamento ídem. É...a Piaf era meio traviatta mesmo. Em http://www.youtube.com/watch?v=MFyDZDa5uKs
Abraços,
Henrique Marques Porto
Comentário de Oscar Peixoto em 10 janeiro 2009 às 18:19
Henrique, só espero que os visitantes desta página leiam os comentários que nela são feitos. Não tenho dúvidas de que todos os que aqui opinam de alguma forma contribuem para o enriquecimento do blog. Mas é impossível deixar de reconhecer que suas observações são verdadeiras aulas sobre o tema. Só tenho a agradecer.
Mas comentemos o comentário :-)
Você mesmo já nos deu vários exemplos de cantores que cantavam em várias tessituras, como Caruso (que você lembrou ter cantado até como baixo), Lauri-Volpi que fez de tudo e que aos 80 anos ainda cantava mais que muito garoto iniciante, e muitos outros. Não sei se a mudança de tessitura necessariamente será prejudicial. Se forçada, certamente causará danos talvez irreversíveis, mas pode ser também natural, como parte do próprio processo de amadurecimento (leia-se envelhecimento) do indivíduo.
Agora vemos um Kaufmann que, segundo tudo indica, é sério candidato a fazer parte dessa galeria de grandes e surpreendentes estrelas. Além de tudo, o rapaz é um atleta, quase um maratonista, com preparo físico invejável. Quem já tentou dar seus gorjeios sabe o quanto é difícil coordenar movimento físico – respiração – emissão vocal. Até então, a turma “pop” vinha dando banho nesse quesito, canto e dança conjugados (vide os shows da Madonna e das nossas Daniela Mercury e Yvete Sangalo) como parte da apresentação artística. Parece que agora o preparo físico se estende ao mundo da ópera. Acho que cada vez menos os cantores líricos se apresentarão estáticos nas suas árias de destaque, como se estivessem em recital, em que todos (artistas e público) se preocupam basicamente com a técnica e com a expressão vocais. Normalmente o que se via era uma lutinha fajuta de espada aqui, outra acolá, e um ou outro estrangulamento mal simulado (hoje, se Desdêmona bobear é capaz de ir para o beleléu em pleno palco). Havia exceções, certamente, como um Cesare Siepe atlético, que fez Don Giovanni escalar balcões e deles saltar na maior desenvoltura, continuando a cantar como se não tivesse despendido esforço algum. Mas, convenhamos, não era o comum. Até cantores de bom porte físico como Del Monaco, Di Stefano e Corelli, portavam-se como recitalistas em suas árias de força. Nem falemos daqueles cujo ventre mais avantajado (como Gigli, Björling, Bergonzi, Pavarotti e o próprio Caruso - com aquela pancinha que se vê nas fotos) certamente os impedia de maiores malabarismos e desenvoltura cênica.
Hoje, vemos a ópera teatral (quando não cinematográfica – em breve teremos efeitos especiais em cena), um Kaufmann fazendo mecânica de automóveis em pleno palco, cantando como quem conversa com seus botões, quase sem se voltar para a platéia, um Villazón deitando e rolando (literalmente) pelo chão, aos beijos e abraços com a Natalie Dessay na Manon...e ambos cantando para valer! Enfim, parece que vivemos novos tempos na cena lírica. A beleza física das estrelas e a pinta de galã dos astros equiparam-se a seus refinados dotes vocais. A representação cênica é cada vez mais vigorosa, arrebatada, parece que a ópera rejuvenesce dia a dia. Felizmente.
Comentário de Jonas Alves Corrêa em 12 janeiro 2009 às 23:28
Surprise! Nem desconfiava que existem 5 categorias de tenor. Em qual delas, me antecipando, se enquadra então o meu ídolo maior Luciano Pavarotti? O Placido Domingo, caracterizado de Otello, está irreconhecível fisionomicamente no vídeo, mas a sua voz dramática é magnífica. Gostei muito do xará alemão. Entretanto, quem mais me impressionou foi o velho tenor dinamarquês. Mais uma vez, aceite meus parabéns pela excelente continuidade do seu trabalho e pelo brilhantismo dos seus comentários. Abraços.
Comentário de peter baard em 22 março 2009 às 19:02
c'est magnifique Oscar, mais de tous ces aires tristes, je me sens un peu mélancolique

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