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Existem certas situações que não precisam ser explicadas com a matemática dos homens. Precisam ser explicadas com a matemática do tempo ou com a matemática do bom senso. O homem racional usa os meios técnicos para resolver problemas que exigem a lógica dos fatos. A matemática do homem é racional. Tão racional quanto as questões dos físicos sobre a formação do universo. Mas a racionalidade dos homens, às vezes, se perde ante a razão combinada com a emoção. No mundo dos apressados e aficionados pela racionalidade galopante, não há espaço para combinar razão e bom senso. Hoje somos movidos pela envergadura das máquinas. E com elas somos levados a agir como máquinas. Somos homens máquinas. As máquinas estão em nossa vida assim como as vestimentas que nos cobrem. Sem mas máquinas nos tornamos incapazes de resolver certos problemas. Sem as máquinas perdemos tempo demais. Permitimos que as máquinas se tornassem nossas aliadas de tal modo que hoje somos quase dependentes delas. Usar a caneta ou o lápis para rascunhar um texto já não é usual. Para que, se os erros as máquinas podem corrigir em tempo real? Canetas e lápis, borrachas e outros apetrechos, antes necessários ao escritor, hoje se tornam obsoletos diante da nossa modernidade artificial. Um coração que bate hoje amanhã poderá ceder lugar a um coração-máquina, que bate igualzinho ao coração original. Talvez até com mais precisão. A máquina dará a ele a pulsação devida. Ela controlará os batimentos necessários. Movidos a isso, guiados pelas máquinas, tornamo-nos racionais e lógicos demais. Não há mais espaço para aquela confabulação monológica. Não há mais espaço para as divagações. O que ontem servia de explicação para o homem hoje são apenas rumores da invenção criativa das nossas ilusões. Michel de Certeau, em A invenção do Cotidiano. Artes de fazer, destaca que o homem ordinário, homem comum, em suas práticas cotidianas, tornou certas práticas usuais em práticas esquecidas. Jogar conversa fora no fim da tarde é incomum. Sentar debaixo das árvores para ler um jornal ou folhear uma revista parece coisa de um passado tão distante. São raras as pessoas que tiram um tempo para ler jornais e revistas. O que se vê, no dia a dia, são pessoas que vão e vêm apressadas, seguindo o ritmo das máquinas. Essa vida, quase que artificial, nos tornou impacientes também. Minha sobrinha, dia desses, me disse que tinha ouvido o canto do uirapuru. Quis saber se ela tinha visto o passarinho. Ela se apressou em me explicar. Não tio, eu ouvi na internet. Lá tem tudo. Não preciso ver o passarinho. A net reproduz igualzinho. Sorri, meio sem graça, mas tive que concordar com ela. Penso que em breve os pássaros de verdade serão substituídos por passarinhos robôs. Meus bisnetos e tataranetos não verão os pássaros de verdade. As máquinas se encarregarão de substituí-los. Afinal, as máquinas servem para facilitar a nossa vida. Também servem para nos tornar dependentes delas. Servem para nos fazer abandonar práticas tão corriqueiras que antes meus avós faziam. Contar no dedo para chegar a um resultado matemático. Olhar o céu para verificar a condição do tempo. Ouvir o vento para saber se havia possibilidade da pesca farta. Isso, nas comunidades do interior, ainda é prática comum. Nas pequenas comunidades. Nas mais desenvolvidas, onde a modernidade chegou, as condições do tempo chegam via telejornais, explicadas pelas mocinhas bem vestidas. E assim a vida segue o seu curso tão ligeira como a velocidade com que exercito os meus dedos para digitar este texto. Velocidade que converge com racionalidade. Racionalidade que é sinônimo de máquina. E neste mundo em que as máquinas dominam e comandam o nosso dia a dia, o bom senso fica de lado. Analisamos as coisas com o olhar dos outros. Menos com o nosso olhar. Percebemos as coisas com a percepção dos outros. Não percebemos por nós mesmos. Já dizia alguém por aí que neste mundo nada se cria, tudo se copia. Então por que perder tempo buscando ser original? Por que correr atrás das coisas efêmeras da vida? O homem romântico cede lugar ao homem máquina. Não há mais romantismo em nossas canções. Não há mais romantismo nos homens de hoje. Ser carinhoso é sinal de viadagem. Ser homem gentil é sinal de babaquice. Homem tem que ser moderno. Mulher que abra a porta do carro. Mulher que vá sozinha ao supermercado. Isso sim é sinal de modernidade. A lógica da vida é essa. Funciona assim. Por que mudar? O bom senso é aquele que alia velocidade e mecanicidade. A sensibilidade é algo que se tornou banal. A voz dos que têm poder soa mais forte e tem mais efeito do que a voz de um qualquer. Que digam os senhores da mídia. Eles ditam as regras da verdade nos seus editoriais e obedeçam os que têm juízo. A sensibilidade dos poderosos tem o tamanho da sua ganância pelo poder e pelo dinheiro. Ser sensível no mundo das máquinas é algo raro. Ser sensível no mundo em que perder tempo com coisas banais é um exagero. Um dia aprenderemos que a sensibilidade ainda existe. É só olhar o vôo das aves. É só observar uma rosa como ela desabrocha. É só olhar no sorriso dos nossos anciãos. Vivemos num mundo de máquinas. Mas não podemos alongar a nossa vida como podemos prolongar o tempo de uso de uma máquina. E, por não podemos adicionar um segundo a nossa existência, podemos usar alguns minutos da nossa vida para exercitar a nossa sensibilidade.

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