Acabo de ler matéria jornalística sobre eventos virtuais e suas milhares de adesões,notícias-brincadeira e o impressionante número de pessoas reais que participam ativamente de fóruns de debates sobre as notícias inventadas e aderem aos eventos virtuais.
De outro lado, já fiz a experiência em redes sociais; medir a popularidade de postagens sobre temas e notícias reais, que exigem opinião crítica, como: Lei da Anistia e a tortura e postagens amenas, na linha (no que você está pensando): - Assistindo novela; -Com insônia... E, se ainda tinha alguma dúvida, concluí tristemente que a segunda hipótese atraiu dezenas de comentários enquanto a primeira mereceu quando muito um "curti" de algum amigo, muito amigo.
Então é isto, eventos virtuais, notícias absurdas, páginas falsas, pequenos comentários do cotidiano merecem bem mais atenção do que eventos solidários, causas e eventos que exijam nossa contribuição intelectual, política, solidária, mas principalmente real.
A informação é ágil, em drops como diria um grande amigo...mal você digeriu um e ops lá vem outro, mais colorido, saboroso e de rápida dissolução (literalmente).Relacionamentos ídem; não há mais espaço para dramas emocionais, nada que exija parceria, envolvimento e comprometimento com problemas que não são nossos. Cada um com seus problemas ou o famoso cada um no seu quadrado repetido à exaustão (e prefiro nem comentar a origem).
Aderir a um relacionamento fantasioso e irreal onde somente ouvimos o que queremos ouvir, evitamos problemas e desligamos o telefone móvel, vulgo celular se somos incomodados é mais ou menos como aderir aos eventos e páginas "fakes"; mais fácil, indolor e sem riscos, que não o da alienação.
E alienar é a palavra do momento. O fenômeno da busca pelos paraísos artificiais da internet nada mais é que o retrato do hedonismo em que vivemos. Se alguém leu Aldous Huxley certamente lembrará das pílulas do prazer. Podem ser drogas, programas televisivos decadentes e de baixa qualidade intelectual, relacionamentos rápidos e sem maior envolvimento, vidas e encontros de avatares, movimentos sociais que jamais ocorrerão, guerras de mentirinha, sexo virtual; desde que dêem prazer, desde que amorteçam o dia a dia, desde que façam esquecer o ônibus lotado, a falta de dinheiro no banco, o câncer de uma pessoa querida, a falta de perspectivas e planos para o futuro, a impossibilidade de ter um filho, a decepção com os filhos, ah, todos temos problemas e em certa medida buscamos fugir deles. É a sobrevivência! Não sobreviveríamos sem pequenas lacunas de esquecimento e compensações; mas será que em algum momento nos perdemos em uma destas grandes lacunas e não encontramos o caminho de volta?Será o mito da caverna de Platão? Gostaria de ter as respostas; mas sobretudo companheiros de questionamento.
Provavelmente estou apenas envelhecendo e tecendo críticas a uma nova geração e suas novas formas de relacionamento, mas tudo parece tão pessimista, tão byroniano e esta geração parece já ter nascido envelhecida. A vida é assim mesmo,meio perigosa ou monótona demais, instável e muitas vezes sem sentido e quem opina sobre notícias reais corre o severo risco de ser criticado, quem ama e faz amor corre o risco de acabar machucado, quem adoece corre o risco de morrer...E nada é assim tão "fast", tão rápido... a vida alinha as coisas no seu ritmo incerto, assim como desalinha. Podemos vivê-la ou simplesmente optar em sermos sobreviventes. E temos sobrevivido em uma grande lacuna de esquecimento e compensações. Comprar o tênis de marca e compensar-se pela educação e saúde que jamais terão, fingir que pertencem a uma classe social com acesso a tudo ou ter tudo e comprar "afeto" de alguém que dirá que nos ama e os fará acreditar brevemente na própria importância em um Admirável Mundo Novo em que nada é importante exceto o próprio prazer. Ironia das ironias, três páginas de jornal e parte de um programa televisivo se dedicam às redes sociais, às notícias de encomenda e aos eventos virtuais. Murdochs amadores da internet, os jovens precisam se reinventar. E nisto o ser humano é imbatível; mas os limites hoje são tênues e se estamos surdos à realidade quem nos dirá que o o mundo virtual não ditará os novos acontecimentos. Duvide e um "twitaço" modificará rumos da política ou um novo evento virtual desencadeará uma guerra. Da solidão de uma cadeira em frente a um monitor gelado reinventaremos a vida. E quem dirá onde ela realmente está?
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