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Você alguma vez já ouviu falar que um famoso pianista tenha sido vaiado em determinada apresentação? Ou de um violinista renomado que tenha sido apupado porque desafinou uma notinha em uma partitura imensa? Não se sabe de platéia que vá a um concerto e fique na expectativa de uma determinada nota a ser tocada. Será que o violinista vai dar aquela nota acutíssima, ou vai falhar? Suspense. Pois na ópera, isso acontece e com mais freqüência do que se imagina. Artistas de primeira, cantores de altíssimo gabarito, estão sempre expostos a esse risco. Por melhor que cante e interprete seu papel, se não der aquele “dó de peito”, se o diafragma falhar naquele momento crucial, vai por água abaixo todo o seu esforço, todo o trabalho de anos de estudo. Uma notinha só, perdida entre centenas de outras, muitas vezes até mais difíceis de serem executadas, é o suficiente para a catástrofe total.

Conseqüência: a vaia ou, o que é quase tão arrasador quanto, aquele murmúrio desconfortante de decepção e desaprovação por parte da platéia.

O mundo da ópera é um pouco diferente dos demais mundos artísticos. Dentro do universo musical, eu diria que é um mundo à parte. Por algum motivo, a ópera desperta nos aficionados paixões exacerbadas, disputas acirradas entre os fãs de um artista e os de outro seu concorrente, sem que haja razão aparente, seja do ponto de vista técnico, seja do ponto de vista meramente musical (algo assim como acontece no futebol, outro mistério passional). Mas o fato é que acontecem, de forma mais sofisticada e elitizada, disputas entre os fãs-clubes do soprano A e os do soprano B. Algo parecido com o que acontecia, na era de ouro do rádio, entre os fãs da Marlene e os da Emilinha. Mesmo quem não viveu aquela época possivelmente tem notícia dessa disputa que durou enquanto aquelas cantoras estiveram em atividade.

O caso Maria Callas x Renata Tebaldi é emblemático. Ambas sopranos maravilhosos, artistas completas no palco, belas mulheres, realizadas profissionalmente, mas tidas como inimigas figadais, muito menos por concorrência de papéis e contratos nos grandes teatros do que pelas “torcidas” das platéias. Os fofoqueiros da época chegavam até a atribuir uma disputa amorosa entre as duas por causa do tenor Giuseppe di Stefano, pura intriga de baixo nível. A bem da verdade, essa suposta inimizade nunca existiu, conforme mais tarde se esclareceu. Pelo contrário, embora não tenham sido amigas, eram admiradoras uma da outra, mesmo não tornando isso público, provavelmente para alimentar um pouquinho as bilheterias. E o que essa pseudodisputa deu de vaia nos teatros é uma história a ser contada.

Recentemente, tivemos um caso que deu manchetes no mundo inteiro: o tenor francês Roberto Alagna, indiscutivelmente um dos maiores da atualidade, foi estrondosamente vaiado no Scala de Milão, na apresentação da Aida, de Verdi. Isso após cantar corretamente, diga-se de passagem, sua primeira ária da ópera (Celeste Ainda). Alagna, revoltado, deu uma bombástica banana para o público e retirou-se de cena. Isso, na linguagem futebolística, aos 5 minutos do primeiro tempo! Certo ou errado, Roberto não resistiu a essa cobrança impiedosa da “torcida”.

Outro caso, também recente, ocorreu com o tenor Rolando Villazón (que estreou esta página), na ópera Manon de Massenet. Sua voz falhou na sustentação de uma nota (não aguda, por sinal), por um problema nítido de cansaço do diafragma. Não foi vaiado no teatro, mas o que deu de comentários depreciativos no vídeo do You Tube, não está no gibi. E o sujeito que colocou o vídeo no ar, ainda acrescenta que foram três as “quebras” da voz. Bem, no trecho apresentado só notei uma, no final da ária, na sustentação do segundo “loin de moi”...

Como explicar esse sadismo de alguns aficionados? Com a palavra os psicólogos.

Confiram:

Roberto Alagna



Rolando Villazón

Exibições: 93

Tags: alagna, aída, callas, canto lírico, manon, massenet, tebaldi, vaia, verdi, villazón, Mais...ópera

Comentário de Laura Macedo em 13 novembro 2008 às 1:17
Oi Oscar.

Há alguns dias, nossa amiga, Helô enviou-me um e-mail especial divulgando seu trabalho, aqui na Comunidade, ligado a música clássica, especialmente a ópera. E que seria interessante conhecê-lo.

Como tudo que diz respeito a Música me interessa bastante, antes da dica dela, eu já tinha "deitado e rolado" na sua página. Como, também, essa é uma das áreas da música que não domino, fiquei quietinha, ou seja, com receio de emitir qualquer opinão. E ainda estou.

Considero que o processo de aprendizagem e desenvolvimento humanos é contínuo, gradativo, global (no sentido que envolve os três campos de vivência do ser humano: o fazer - psicomotor, o pensar - cognição e o sentir - afetividade), cumulativo...

Com base nas características do processo mencionado acima vou tentar, gradativamente, pesquisar mais sobre a temática, visando acumular novos conhecimentos. Ainda bem que a aprendizagem também é contínua, estamos sempre aprendendo coisa novas, principalmente quando estamos motivados, não é mesmo?

Assisti os dois vídeos e, na minha ignorância, não percebi nada errado. Mesmo considerando a hipótese de erro, acho super grosseiro, deselegante uma platéia vaiar um artista, principalmente se ele já deu mostras da sua competência. Como você mencionou, isso é sadismo. E como explica-lo, junto a outros comportamentos humanos abomináveis? É meu amigo Oscar, acho que nem Freud explica.

Um grande abraço. Laura .
Comentário de Helô em 15 novembro 2008 às 22:55
Agora você ganhou uma amiga que vale ouro, Oscar.
Laura é um amor de pessoa e sabe muito sobre música brasileira, com especialização em chorinho.
Como já conversamos sobre o assunto da vaia, comentarei apenas do vídeo de Villazón. Eu não teria percebido absolutamente nada não fosse a sua observação. Mesmo assim, estou em dúvida se o que percebi é mesmo o que você citou.
Beijos.
Comentário de Jonas Alves Corrêa em 19 novembro 2008 às 22:27
Parabéns, Oscar. Achei brilhante o seu artigo. Eu, particularmente, considero um absurdo esse tipo de vaia. A paixão pela ópera não pode ser comparada, por exemplo, com a paixão pelo futebol. O ambiente é refinado, a platéia é seleta e pressupõe pessoas educadas e de bom nível cultural. Enfim, isso é matéria mesmo para os psicólogos.
Comentário de Henrique Marques Porto em 22 novembro 2008 às 1:26
Caros Oscar, Helô, Laura e Jonas,
Aqui das galerias, lembrando de vaias soberbas e até de casos que foram parar em delegacia de polícia, concluo que sem elas, as vaias, os teatros ficariam mais pobres. Em 1936, Bidú Sayão -já com sólida carreira no Metropolitan de Nova Iorque- voltou ao Rio com elenco internacional. Entre nós, a figura de maior expressão na ópera era a italiana Gabriela Bezanzoni Lage. Mezzo de voz estupenda e personalidade exuberante. Em sua mansão no Parque Lage, Gabriela mantinha cursos de canto e teatro, formava uma geração inteira de cantores nacionais e organizava temporadas oficiais de ópera no Teatro Municipal. Gabriela era rigorosa com Bidú. Não escondia que a achava uma cantora mediana, até medíocre, que apenas havia tido sorte. As duas não trocavam um ou dois solfejos. Ao desembarcar no Brasil, Bidú não foi para o hotel. Foi direto a uma delegacia de polícia. Denunciou Gabriela Bezanzoni como responsável por uma conspiração cujo objetivo era levar gente ao teatro apenas para vaiá-la. A coisa virou escândalo que foi parar nas primeiras páginas dos jornais (é vero, já conferi). Gabriela defendeu-se classificando de ridícula e infantil a acusação. Bidú insistiu, garantindo que a rival em celebridade tramava a bocca chiusa a desgraça de sua carreira. Mas, como havia queixa formal a polícia foi para o teatro conter a suposta ameaça de vaia. Sim, vaia "ofendia os bons costumes", também era assunto da polícia. Nada aconteceu, além do fato de que alguns meganhas foram apresentados ao bel canto.
A maior vaia ocorrida no Teatro Municipal do Rio aconteceu bem antes. Em 1917, Enrico Caruso cantou no Rio. Em cartaz a Tosca, de Giacomo Puccini. A temperamental, caprichosa e bem educada musicalmente platéia carioca de então brindou o gênio do canto com histórica e barulhenta vaia. Não porque ele tenha cantado mal, mas por razões que nada tiveram a ver com o bel canto, e sim com bons modos. Caruso cantou tão bem e tão lindamente o E Lucevan le Stelle, a famosa ária do último ato da ópera, que o público explodiu maravilhado em aplausos e gritos de bis. O tenor agradeceu comovido, mas manteve-se impassível diante dos pedidos insistentes do público para que fizesse soar novamente sua incrível voz na bela ária de Puccini. E à excitação das galerias e balcões a grande estrela respondia com gestos de fastio e arrogância, cruzando os braços ou sinalizando ao maestro para que continuasse com o espetáculo, ao que o público replicava determinado com nova onda de gritos de bis, bis, bis! A coisa já havia evoluído para renhida queda-de-braço entre artista e público quando Caruso, com expressão feroz no rosto e gestos malcriados de mãos balançando nervosas, gritou para o maestro, em italiano, alguma coisa que o público entendeu como: “-Bisa logo essa merda aí!”. Não. Assim o público não queria porcaria de bis nenhum. E respondeu ao mau humor do napolitano despejando sobre o palco do Municipal estridente e ensurdecedora vaia, com direito a pateada. O público carioca há muito tempo não faz mais dessas coisas e nem sabe, provavelmente, o que vem a ser uma “pateada”, que é bater com os pés, as “patas”, no chão. Hoje, nossas platéias são muito bem educadas quanto aos modos. Mas que tristeza vê-la tão bem comportadinha, e tão burrinha, aplaudindo tenores papudos que soam como as cabras ou tristes sopranos que lembram o ranger das portas. Caruso cantou bem e foi aplaudido. Foi malcriado e foi vaiado por isso. E depois da vaia, bisou a linda música de Puccini. Enfim, um sucesso completo. Dele e do público. E da vaia.
Abraços
Henrique Marques Porto
Comentário de Lia Noronha em 30 dezembro 2008 às 0:27
Exigem-se a perfeição...qdo qualquer homem é capaz de errar...Homem no sentido generalizado da palavra,é claro!rs
Abraços de felicitações pelo ano novo pr avc e sua família.

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