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sexta-feira, 19 de março de 2010







A CRISE DA IMPRENSA BRASILEIRA É ÉTICA

Do Blog DESABAFO BRASIL.
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Chovem os artigos na imprensa internacional sobre a crise da imprensa, enquanto
crescente numero de jornais fecham, despedem jornalistas, diminuem suas
tiragens. Os diagnósticos, ao serem feitos, em grande medida por
pessoal ligado a essa imprensa, não conseguem sair do rame rame usual: a
difusão da internet grátis, dos jornais grátis, etc., etc., seriam os
responsáveis. Será?

Mas um artigo, desta vez da prestigiosa publicação norteamericana The Nation – “How to save jornalism?”, de John Nichols e Robert W. McChesney, de 25 de janeiro deste ano - aponta para um
diagnóstico um pouco diferente. Em primeiro lugar, classifica o
jornalismo como um “bem público”, considerando que deveria ser
considerado da mesma forma que se considera a educação, saúde pública, o
transporte, a infra estrutura.
Considerado dessa maneira, o fato de ser financiado por publicidade já desvia ou deforma esse caráter
público, porque a publicidade visa interesses privados, venda de
mercadorias, prestação de serviços na esfera privada. Essa concepção
remeteria ao tema do financiamento público da imprensa.
Quanto ao diagnostico que aponta para a difusão da internet, os autores recordam
que a crise começou muito antes, já nos anos 1970, apontando para a
busca de maximização dos lucros pelas grandes corporações, que foram
tornando as mídias empresas como outras quaisquer de seu imenso leque de
investimentos, tendo como resultado, entre outros, a diminuição da
qualidade e a banalização do jornalismo, cada vez mais longe de ser um
bem público.
As propostas atuais de tentativa de superação da crise financeira, apontam normalmente para o pagamento das páginas de
internet, dado que a publicidade nestas representa um ganho de 10% do
que se perde nas publicações impressas. No entanto, apenas um que outro
jornal que acredita na sua capacidade de manter audiência sendo pago –
como o The Wall Street Journal – se arriscam nessa direção. Ainda assim
é duvidoso que possam arrecadar uma proporção minimamente
significativa do que perdem com a diminuição da tiragem e,
principalmente, com a retração da publicidade, canalizada para outros
meios.
Na realidade a crise da imprensa é a da perda de credibilidade, é uma crise ética, de sua transformação em um
instrumento da publicidade, do ponto de vista econômico, e da sua
constituição em mentor político e ideológico da direita. Os dados,
publicados recentemente, demonstram como todos os grandes jornais
brasileiros perdem leitores, mas sobretudo perdem influência. Embora
todos os maiores jornais e quase todas as revistas semanais – à exceção
da Carta Capital – sejam de férrea oposição ao governo, este mantêm
83% de apoio e eles conseguem apenas 5% de rejeição do governo. Temos
aí uma idéia da baixíssima produtividade desses órgãos de oposição.
Jornais progressistas como La Jornada, do México, Página 12, da Argentina,
Público, da Espanha, que gozam de alta credibilidade, se consolidam e
se expandem, tendo páginas abertas amplamente visitadas. Seu patrimônio
é sua ética social, suas posições políticas democráticas, o espírito
pluralista dos seus comentaristas, a originalidade da suas coberturas
jornalísticas.
Por por Emir Sader


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