A pergunta com que inicio este texto não é estranha a nenhum ser humano normal e sua resposta geralmente é negativa para a grande maioria dos homens, no sentido de que sua renda é menor do que a considera justa. Portanto, não sem fortes razões, cientistas sociais já dedicaram tantas páginas à justificação da renda recebida pelas pessoas na sociedade em que vivem, sob o titulo de distribuição da renda social. Duas ordens de razões principais têm servido para justificar a renda das pessoas: a contribuição que cada um dá à produção dos bens e serviços que atendem às necessidades da população; e o atendimento das necessidades básicas de cada um. No primeiro caso, a renda pessoal é um prêmio supostamente proporcional à capacidade empregada por cada um na geração da produção. No segundo caso, trata-se da atribuição a cada pessoa de uma renda em função exclusivamente de sua condição de ser humano participante da sociedade que, para continuar vivo, precisa atender minimamente certas necessidades materiais e culturais.
Quem se der ao trabalho de examinar as estatísticas de distribuição da renda pessoal em qualquer país, dá-se conta imediatamente que ela é extremamente concentrada. No caso do Brasil, por exemplo, conforme o Censo de 2000, as famílias mais ricas, representando apenas 2,4 % do total, tinham uma renda média igual a 14 vezes a renda média da total das famílias e 80 vezes a das famílias mais pobres, cerca de 20% do total. Em relação ao que ocorria 20 anos antes, a situação piorara sensivelmente, pois naquela época as famílias mais ricas representavam apenas 1,8% do total das famílias, cuja renda era 10 vezes a renda média de todas as famílias. É quase desnecessário dizer que se trata de uma situação de concentração da renda em favor dos mais ricos, extremamente elevada, e que piorou sensivelmente ao longo dos anos.
A situação mencionada, torna perfeitamente justificado descartar os dois critérios mencionados como justificadores exclusivos da distribuição da renda. Por outro lado, fundamenta a suspeita de que a grande maioria das pessoas que constituem nossa população ganha muito menos do que efetivamente merece conforme os aludidos critérios e que uma minoria insignificante em termos numéricos ganha muito mais do que merece. Ora, se os dois critérios mencionados não conseguem explicar as grandes diferenças, deve haver outras razões que explicam a situação.
A principal dessas razões é que as rendas provenientes da propriedade e os altos salários pouco têm a ver com a contribuição que seus beneficiários oferecem à atividade produtiva. A condição de possuir riqueza acumulada ao longo do tempo permite a uma minoria receber uma fatia muito alta da produção, ou seja, do esforço produtivo comum da sociedade. Por sua vez, a pequena minoria que recebe altos salários se beneficia do fato de localizar-se estrategicamente no circuito produtivo, o que lhes permite apropriar-se de uma parcela substancial do esforço produtivo comum da sociedade, independente de sua contribuição para a produção.
A política social do atual governo tem buscado, com algum sucesso, alterar esse quadro de injustiça, através de medidas que visam diminuir as citadas disparidades. O “Bolsa Família”, atua segundo o critério de distribuir a renda em função das necessidades, enquanto a política de aumento real do salário mínimo, visa tornar a renda proveniente do trabalho mais justa, em função do esforço produtivo dos trabalhadores que ganham menos.
Os que percebem altas rendas provenientes da propriedade ou altos salários pela posição estratégica em que se situam no circuito produtivo-financeiro, assim como os intelectuais que defendem a atual estrutura social-produtiva, têm formulado ao longo do tempo argumentos vários para justiçar a situação privilegiada que uma pequena minoria desfruta na sociedade. Mas, a verdade pura e simples é que as justificativas utilizadas, nada mais são do que uma cortina de fumaça para esconder a exploração da maioria desorganizada por uma minoria, nem sempre competente, mas detentora de propriedades ou bem localizadas no circuito produtivo.
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