Análise Critica da peça Facas nas Galinhas
Por Jair Alves
Visceral. Em tempos de “facas nas cartilagens”, é possível até considerarmos constrangedor analisar o contexto da peça, FACAS NAS GALINHAS, de um dramaturgo escocês David Harrower pouco conhecido entre nós, falar sobre o contexto sem tomar partido. Não só é necessário estraçalhar seu conteúdo para que cada vírgula seja comentada, mas e principalmente acusar que estamos hoje diante de uma saudável onda em busca do sentido e um teatro que dê resposta a todas as coisas que compõem o nosso dia a dia. Facas nas Galinhas, soma-se ao esforço “Herculano” das centenas de profissionais, que tem demonstrado preocupação com esse desprezo ao teatro de texto. Esta manifestação a que assistimos é um exemplo contundente de que mais do que nunca é preciso falar como, cá entre nós, um dia foi preciso “Cantar”. Ainda a tempo para relembrar aqui mais uma vez a agradável companhia da atriz, Ester Góes, “desfilando o verbo” prazerosamente a respeito de seu projeto (já realizado) HÉCUBA, onde descrevia a origem da palavra, do Parlamento, do teatro, da Civilização e da Democracia. Facas nas Galinhas, de início, até nos parece maçante ouvir seus personagens falando do vilarejo onde vivem, como se fosse o próprio Almeida Garret em suas longas descrições sobre o universo que habitava o romancista português. Não é nada disso. O mundo da obra do Autor, nem é tão descontextualizado como parece nos fazer crer o texto de apresentação acompanhada da interpretação, antes de tudo revela a magia de que fazemos parte de um mesmo romance subdividido em capítulos distintos, e ao mesmo tempo em que inseridos no escrito por incontáveis mãos anônimas tais como a mulher do “potro”, o “moleiro” e o próprio “camponês”, estúpido que acaba num final pouco desejável. Não só eles, mas e também nós fazemos parte do mesmo mundo.
A montagem, encabeçada pelo brilhante diretor, Francisco Medeiros (Chiquinho Medeiros), que conhecemos desde o “Início dos Tempos”, revela que a Modernidade nos dias atuais chegou para acusar que ainda estamos vivendo submersos nas “garras das mais primitivas armadilhas” humanas e sociais. A mesquinhez, a ira, o medo e, por fim, o desespero dos aflitos está presente na versão de um texto tão intrigante em que é possível prever uma das mais bem sucedidas encenações da atualidade. O que vimos, em cena, é mais do que um retrato do “psicologismo” social. Seu diretor, o “Chiquinho” (se isso não for uma redundância), atinge a maturidade que “persegue perfeição” desde os tempos em que abandonou o conforto da família e uma carreira de sucesso fácil, em meados da década de setenta no Rio de Janeiro, para se aventurar em terras distantes na busca do desconhecido ou, do indecifrável. Talvez, já tenha encontrado, ainda não tenha se dado conta disso. Mas, nós afirmamos que sim.
Meio a dezenas de “peças” e “projetos” que compõem a estupidez que consome os já parcos recursos destinados à pesquisa teatral no Brasil misturados aos programas sociais de “combate à miséria”, parodiando João Cabral de Mello Neto, “que não combatem jamais”, o grupo “Barracão Cultural” faz um discurso cênico demolidor ao mesmo tempo cravando expectativas que nos fazem respirar fundo e evocar o “vamo que vamo”. Magnífico!
Não é difícil de imaginar, para quem fica ali com a respiração presa por oitenta minutos, o exercício mental dos três atores (três personagens), alternando a narrativa daquele mundo tosco com a vivência emocional próxima da arquetípica de cada um do trio. Qualquer ator ou atriz, com algumas (três ou mais) décadas de palco, há de pensar “haja adrenalina e fígado”. A sensação que se tem é que os músculos da face, e da região pélvica de cada um deles (da atriz, principalmente) deve amanhecer doloridos, após a cada representação. O espetáculo, uma mistura de, Artaud; Brecht; Judith Malina é o resultado Extraordinário!
Um outro registro necessário é que, além de Francisco, Eloisa, Cláudio e Thiago, esta é uma grata surpresa para as platéias paulistanas, ávidas por um teatro mais sério e consequente e que a trupe vai à cena com o extraordinário apoio de uma dezena de outros profissionais e colaboradores. Isso é o mínimo que nós podemos fazer aqui, estampar o nome de todos. “Vida longa, para Facas nas Galinhas”!
Ficha técnica
Espetáculo: Facas nas Galinhas
Texto:David Harrower (*)
Tradução:Fábio Ferretti
Direção:Francisco Medeiros (**)
Elenco:Eloisa Elena, Cláudio Queiroz e Thiago Andreuccetti
Trilha sonora: Dr Morris
Cenário e figurino:Marco Lima
Iluminação:Marisa Bentivegna
Coordenação técnica:Maurício Mateus
Instalação sonora:Dr Morris e Maurício Mateus
Preparação corporal:Fabricio Licursi
Designer gráfico:Teresa Maita
Fotografias:João Caldas
Construção de cenário: Ono-Zone Estúdio
Costureira:Benedita Calixtro
Produção executiva:Geondes Antonio
Administração:Marina Porto
Realização: Barracão Cultural - www.barracaocultural.com.br
(**) Chiquinho Medeiros dentre tantas montagens foi responsável pela genial Artaud Espírito do Teatro e um dos diretores de O Ato Teatral, ambas na década de oitenta.
Para o diretor, Francisco Medeiros, a história de uma mulher jovem que passa a maior parte de sua vida numa aldeia em um tempo arcaico “é o percurso desta personagem, num contexto cheio de intrigas e elementos inusitados - a construção de uma identidade, o desvendamento de um ser, e a conquista de uma individualidade”.
(*) David Harrower – autor de “Facas nas Galinhas”, nasceu em Edimburgo, (Escócia) no ano de 1966, é uma das mais clássicas obras teatrais contemporâneas, em língua inglesa. Estreou em Edimburgo, em meados dos anos 90, numa produção do Bush Teatro e do Traverse, com direção de Philip Howard. Logo se transformou num grande sucesso em importantes palcos europeus, sendo traduzida e encenada em dezenas de países. Sua origem humilde fez com que ganhasse a vida lavando pratos não tendo dinheiro suficiente para ir ao teatro, mas que se transformou no grande autor, tendo entre suas obras, “Matem os Velhos, Torturem Suas Crias” (1998), “Presença” (2001), “Terra Negra” (2003), “A Recusa” e “Blackbird” (2006) “365” (2008), “Cinzas de “Sangue”, “Começar de Novo”, “Caixa de Surpresas” (2009) e, a mais recente “A Slow Air” com estreia em maio, no Trycicle Theatre (em Londres), após ter estreado no Festival de Edimburgo, com própria direção.
Serviço
Local: Espaço da Companhia do Feijão
Endereço: Rua Dr. Teodoro Baima, 68 - República/SP - Tel: (11) 3259.9086
Temporada: Até 15/07
Dias: sextas e sábados (21 horas) e domingos (19 horas)
Ingressos: R$ 15,00 (meia R$ 7,50) - Bilheteria: 2h antes da sessão
Classificação estaria: 12 anos
Capacidade: 60 lugares
Informações: (11) 5539-1275
Gênero: Drama:
Duração: 80 min
Estacionamento conveniado (ao lado do teatro): R$ 15,00.
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Permalink Responder até Ana Engelen em 9 junho 2012 at 5:40
Jair,
Repasso aqui o que lhe escreveu o diretor Chiquinho Medeiros:
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