Para quem se baseia exclusivamente nas informações divulgadas pela grande imprensa dos Estados Unidos e repetidas no Brasil, especialmente focadas na falta de liberdades em Cuba e nas condições vida, supostamente precárias, de sua população, “o mundo livre” encontra-se diante de uma ditadura verdadeiramente infernal, que não tem o menor respeito pelos direitos humanos mais elementares. É muito freqüente também ouvir comentários altamente depreciativos sobre Cuba, seus dirigentes e sua forma socialista de governo, da parte de técnicos e de intelectuais que, certamente, nunca se deram ao trabalho de pesquisar criticamente quais são as reais condições de Cuba em suas relações internas e externas, especialmente com os Estados Unidos.
Como a História registra, Cuba foi até o início do Século XX colônia da Espanha durante quatro séculos. Em 1998, os Estados Unidos invadiram Cuba e derrotaram a Espanha, constituindo ali um governo militar que durou até 1902. Neste ano, foi constituída a República de Cuba, mas sob pressão dos Estados Unidos, incluída uma cláusula na Constituição da nova república que permitia aos Estados Unidos intervirem nos negócios internos de Cuba. Essa limitação à soberania de Cuba durou 59 anos, somente sendo eliminada com a vitória da Revolução Cubana em 1959.
Durante os 59 anos de dependência de Cuba dos Estados Unidos, as atividades que sustentavam sua vida econômica eram a produção de açúcar, para abastecer principalmente o mercado dos Estados Unidos, e o Turismo que aproveitava as belezas naturais da ilha e gerava renda para os trabalhadores cubanos empregados em boates, restaurantes, cassinos e cabarés, todos muitos luxuosos, freqüentados nos fins de semana e nas férias pelos ricaços dos Estados Unidos que ali se deliciavam com as belezas naturais das praias, os shows artísticos e, também, o jogo e a prostituição, totalmente livres.
Com a vitória da Revolução, o governo de Cuba imprimiu uma nova dinâmica à vida política e econômica do país, que levou à expropriação de muitas propriedades de empresas estrangeiras no país, especialmente, dos Estados Unidos. A United Fruit, dos Estados Unidos, teve expropriadas as vastas extensões de propriedade agrícolas que detinha no país. Também foram expropriadas duas refinarias de petróleo norteamericanas que se recusaram a refinar petróleo russo para o consumo interno. Mais recentemente, Cuba negociou com sucesso compensações para empresas de países que tiveram propriedades expropriadas: Espanha, França , Reino Unido, Suiça e Canadá. Os Estados Unidos nunca aceitaram realizar negociações.
Em 1960, sob forte pressão dos Estados Unidos que patrocinava bombardeios nas fazendas cubanas, ameaças de invasão por tropas mercenárias, assim como de sanções econômicas, Cuba foi buscar apoio nos braços da União Soviética, que se comprometeu a dar cobertura militar a Cuba, importar cinco milhões de toneladas de açúcar e dar financiamentos e facilitar o abastecimento de petróleo e cereais.
Ainda no começo de 1960, o presidente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, aprovou um plano contra o governo de Cuba, que criava embargos comerciais ao comércio do açúcar cubano e a sua importações de petróleo, cereais e armamentos e criava incentivos para os exilados cubanos derrubarem o governo de Cuba , mediante ações terroristas. Como sabemos, as sanções comerciais dos Estados Unidos a Cuba continuam até os dias atuais. Ainda em 1961, houve uma tentativa de invasão de Cuba, organizada pela Cia e com a participação da Máfia: a “a invasão da Bahia dos Porcos”
Com o esfacelamento político da União Soviética em 1989, Cuba enfrentou por vários anos uma situação econômica muito difícil, pois perdeu o apoio de seu principal cliente para a produção de açúcar e outras facilidades e financiamentos para a importação de produtos essenciais para o funcionamento de sua economia.
Podemos, agora, ao que é mais importante para julgar o sistema de governo cubano ao longo do período pós-revolução. Quem vê as fotos atuais das zonas urbanas de Cuba fica realmente muito mal impressionado. Os prédios estão envelhecidos e sem conservação, alguns são verdadeiros pardieiros. Nas ruas, os automóveis são muito velhos, poucos e mal conservados. Os bens de consumo mais sofisticados são caros e de difícil acesso para a maioria da população e, quando disponíveis, o são no mercado negro. Tem havido demonstrações de intelectuais contra a falta de liberdade de imprensa e muitas tentativas de fuga para o exterior de pessoas que pretendem elevar seu padrão de vida.
Porém, um exame mais detido dos indicadores econômicos e sociais de Cuba, divulgados por entidades internacionais insuspeitas mostram surpreendentemente que as condições gerais de vida da população cubana são muito superiores às da totalidade dos países em processo de desenvolvimento e, em alguns casos, rivalizam com as de países desenvolvidos. Vejamos tais indicadores.
1) Cuba está entre os 83 paises do mundo que apresentam maior índice de Desenvolvimento Humano, alcançando em 2007 a cifra de 0,863 (51° lugar,44° com o ajuste para incluir o valor do PIB), indicador que é superior ao do Brasil, que alcança 0,813:
2) A expectativa média de vida em Cuba é atualmente de 78,3 anos (37° lugar), equivalente a dos Estados Unidos e bem superior a do Brasil ( 72,4 anos);
3) A taxa de mortalidade infantil de Cuba é de 5,1 por mil (28° lugar), inferior a dos Estados Unidos que é de 6,3 mil (33° lugar) e apenas 1/3 da do Brasil, que é de 19,3 por mil;
4) A taxa de alfabetização de Cuba é de 99,8° (1° lugar no mundo), ou seja, não tem mais analfabetos. Enquanto isso, os Estados Unidos apresenta uma taxa de 99% (13°lugar) e o Brasil uma taxa de 90% ( 95° lugar).
5) Quanto aos indicadores de pobreza, Cuba tem um índice que a coloca em 6° lugar no mundo, enquanto os Estados ainda tem uma taxa de 13,2% ( 33° lugar) e o Brasil estaria em torno de 30%.
Esses indicadores são realmente surpreendentes, pois mostram que as condições médias de vida da população cubana são excelentes para um país ainda pobre, com um PIB per capita de apenas US$ 4.500, equivalente a 1/10 do mesmo indicador para os Estados Unidos e menos da metade no que se refere ao Brasil. Além disto, Cuba tem estado sujeita a sanções econômicas que impedem há muitos anos o desenvolvimento de seu comércio internacional e é forçada a realizar elevados gastos de defesa face ao temor de repetição de invasões de seu território patrocinadas pelos Estados Unidos. Em que residiria, pois a explicação para essa verdadeira mágica, quando tudo que ouvimos pelos porta-vozes da grande mídia aponta em direção contrária?
Não pretendo aqui mais do que sugerir pistas para identificar o que ocorre. Em primeiro lugar, não restam dúvidas de que o governo de Cuba tem adotado prioridades diferentes da de outros países para os investimentos os gastos correntes naquele país. Os recursos que seriam destinados aos automóveis novos e aos bens de luxo, a que a população claramente, não tem acesso, são direcionados para as áreas sociais. Por isto, tem sido possível assegurar saúde e educação em todos os níveis e de boa qualidade, totalmente gratuito, a toda a população. O mais interessante é que o custo desses serviços é relativamente baixo. No caso dos serviços de saúde, representa apenas 7,7% do PIB, aproximadamente o mesmo percentual do Brasil e cerca da metade do percentual dos Estados Unidos. Em 2006, Cuba não teve nenhum caso de difteria, sarampo, coqueluche, poliomielite, rubéola, tétano neonatal, ou febre-amarela.
Vale também mencionar que Cuba tem se destacado no mundo com os resultados alcançados no campo das pesquisas em Biotecnologia, sendo exportador para trinta países do mundo de vacina contra hepatite B, e já tendo patenteado mais de 600 produtos, como vacinas, proteínas, recombinantes, anticorpos monoclonais, equipamento médico etc. A receita da exportação desses produtos já supera 400 milhões de dólares ao ano.
Quando aos problemas que Cuba apresenta no que toca às liberdades democráticas, dá para suspeitar que uma boa explicação para o que ocorre têm a ver com a conduta agressiva dos Estados Unidos, que constitui uma permanente ameaça ao território e as instituições cubanas.
O conflito com os Estados Unidos é mais do que suficiente para explicar o clima de medo em que os cubanos vivem e sua exagerada preocupação com a influência dos meios de comunicação e de outras ações menos ostensivas. Enfim, trata-se da maior potência econômica e militar do mundo, com um PIB total que é equivalente a 300 vezes o de Cuba, uma população que é 25 vezes a de Cuba, situada a uma distância inexpressiva do pequeno território de Cuba e, inclusive com controle militar da ilha de Guantánamo, pertencente a Cuba. A impressão final que fica é a verdadeira realidade de Cuba é muito diferente da que nos pretendem impor.