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O grupo Teatro do Incêndio, em todo o primeiro semestre, premiou São Paulo com uma belíssima leitura sobre a esquizofrenia dessa cidade (rica, feliz e dramática), sendo a primeira parte do trabalho o “Surrealismo” e seus autores. Dessa vez apresenta algumas interessantes mudanças que (a conferir), pode ter ‘desmontado’ o que de mais extraordinário havia produzido na primeira versão. Logo ao final da apresentação, num misto de happy end e celebração, o ator e diretor Marcelo Marcus Fonseca também responsável por maioria dos textos da Cia bradou, “num feriadão destes, as pessoas saírem de casa para vir assistir poemas, é algo extraordinário” (se não foram exatamente essas palavras) com certeza ao menos o sentido, porém, Marcelo infelizmente está equivocado. Raramente alguém se locomove (de onde quer que seja) para ouvir poesias, salvo se escritas pelos próprios (os ainda vivos, naturalmente), mas o que assistimos sexta-feira última foi uma pequena mostra, da busca inconsciente de algo que nos diz respeito e está perdido por aí. Pode até ser num lugar escuro da noite paulistana, nos bares desconfortáveis cada vez mais caros, ou mesmo nos “Templos Adventistas” que se proliferam por toda cidade. Não existisse a busca pelo “divino”, por certo, as igrejas não lograriam de tamanho êxito. A poesia de Fernando PESSOA, Roberto PivaStéphane Mallarmé, Allen Ginsberg ou Claudio Willer, pode ser o caminho ao ‘Paraíso’, mas não somente isso.

Seria prudente, portanto, que o ator, e também o criativo diretor Marcelo Fonseca, ao lado de seu auxiliar de cerimônia W.M. (cada vez mais parecido com Sancho Pança), procurassem ouvir as vozes anônimas dos “Coros” formados e dissolvidos na dinâmica perturbadora produzida no dia-a-dia urbano. Ao mesmo tempo em que louvamos com entusiasmo a força e beleza do Coro na montagem de “Surrealismo 1”, (primeira parte do trabalho), sinceramente (sem desmerecer o trabalho desenvolvido até aqui) sentimos a ausência do mesmo no segundo.

O próprio Marcelo se metamorfoseou no poeta Roberto Piva e isso, talvez, tenha contribuído para um estranho distanciamento do público. Conhecemos o poeta, apresentado por Cláudio Willer em meados da década de oitenta, quando o desejo de mudanças e grande euforia fazia nos lembrar “outros carnavais”. Em muito pouco tempo,
a chamada “Rebordosa” veio com tudo (o insucesso das Diretas Já, a AIDS, Collor, e o mundo pintado pela Globalização); não sobrou “pedra sobre pedra”. Em meio ao amálgama, certa noite no Teatro Ruth Escobar enquanto toda comunidade artística e literária discutia como liberar “no grito e na marra” a peça “TELEDEUM”(do Teatro do “Ornitorrinco”) que havia sido proibida pela Polícia Federal e quando cada esforço era bem-vindo para derrubar de vez a maldição dessa mesma censura imposta no Brasil, Piva investia intempestivamente contra o diretor Fernando PEIXOTO que ali representava o Partido Comunista Brasileiro (PCB). O discurso é conhecido, pois, imediatamente o poeta associou Peixoto ao “Regime Cubano” que prende e tortura os homossexuais (como sabemos, não apenas estes). Hoje com os dois já mortos, recentemente e em situação muito semelhante nós aqui tentando interpretar os “Inimigos da Pátria” e de todos os homens. O pequeno ‘recuerdo’ não diminui a importância de Piva nem de Peixoto, porém; é sempre é bom lembrar que escrevemos em “capítulos diferentes de um mesmo livro’”.

 

Com a ausência vibrante do Coro na primeira versão o forte
da atual montagem é a clareza com que o grupo, capitaneado por Marcelo Marcus Fonseca (agora sem a atriz Liz Vieira), desenha as cenas traçando um painel do universo poético, a partir de Fernando Pessoa. Resta a dúvida se o “Surrealismo”de Breton, Artaud, ou mesmo Piva e Willer se perdeu pelo caminho e estamos agora, diante de um editorial a favor da Livre Expressão e da Livre Tesão. Nada contra, no entanto, com o fôlego demonstrado na primeira parte as plateias mais jovens (menos cabeça) poderão se ressentir desta ausência. Preocupa-nos, em demasia, se o envolvimento até a medula no universo ‘PIVARIANO’ não conduziu o grupo à exaustão. Se isso acontecer, desejamos a Marcelo Fonseca e ao Teatro do Incêndio o mesmo destino de FÊNIX!

 

 

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