
Bem apropriado ao deleite com o brega e a celebração do Dia Internacional das Mulheres, Tonho chegou pra matar.
O brega autêntico engendrado em desespero de causa tenta elaborar linguagem popular na marra, asseverando o valor do gosto muito alem das areias de Copacabana que, a partir de certo momento, passa a embaçar as vistas de cinemanovistas notórios e bem explica as alterações de rota de Jabor, Diegues, Domingos de Oliveira, Barreto... Estava escrito no lado escuro das estrelas.
No quadrilátero baixo meretrício do centro Paulistano que parte da Rua Aurora e chega à Rua do Triunfo (ironias poéticas), que abriga(va) putas, poetas e cineastas, iniciava-se a cafonização da estética cinematográfica anticlassemedevalista e antiembrafilmes a canonização do profano e a denúncia da promiscuidade entre poder cultural e fazer cultural, anônimo, corroído, sabotado, de mal gosto e malfeito.
Teóricos capazes de analisar toda a produção cinematográfica brasileira e internacional, de Humberto Mauro a Einseinstein, de John Ford a Imomura, os malucos movidos a cachaça, câmeras emprestadas e celulóides vencidos souberam elaborar a óbvia correlação entre o gosto popular, a teoria estética e a técnica de filmar.
Queriam filmar para as “massas”, supremo romantismo, massas reais, destituídos do bom-tom de apês sofisticados, mas a gentalha que cultivou o gosto no bangue-bangue, em Mazzaroppi, na TV e nas fotonovelas. Linguagem para office-boys, empregadas domésticas e a lumpensinato que a cidade produzia (produz) em quantidades crescentes; escória, desocupados, machistas, tarados, insanos. Este era o público a quem comoventemente buscava o cinema boca de lixo, na delirante proposta de elaborar um cinema conectado ao povo praquem valia a pena fazer cinema.
Dançaram, evidentemente, esmagados por corporações, pelo poder econômico e pelas políticas de Estado que tomam poetas populares por marginais.
Mas neste momento, e na esteira da discussão/reflexão Roberto Piva e os malditos que botam a Arte em marcha, com toda a porralouquice e as cagadas, é fundamental revisitar estes seres cujo Norte sempre foi: Revolucionar, mesmo que pra sobreviver.
Breguíssimo, sim, ladies & gentlemen, mas aguçadíssima nova forma de olhar.
O cinema marginal, ou estética boca do lixo, nasceu do cinema novo, não como contraponto, como entendem alguns críticos, mas radicalização até as últimas conseqüências das propostas cinemanovistas oriundas principalmente a partir de grupos e produtoras sediadas em Rio e Bahia, pela decadência da indústria cinematográfica paulista, que ganharam reconhecimento internacional graças às obras de Glauber, Joaquim Pedro, Nelson Pereira e Cacá Diegues, propondo estética que aproximasse a linguagem às condições reais de um Brasil economicamente subdesenvolvido, e sob perspectiva nitidamente de esquerda.
“Cinema é História transformada em Linguagem”, diria Cacá Diegues numa entrevista memorável, ratificando o célebre slogan: “Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”. Um cinema que pretendia libertar-se dos altos custos de produção e equipamentos inacessíveis a projetos pouco rentáveis comercialmente. Espécie de guerrilha contra a indústria cinematográfica tradicional, que pelos próprios comprometimentos financeiros era mais passível ao controle e domesticação.
As referências: o neorrealismo italiano de Rosselini, Da Sicca e Visconti; a nouvelle vague de Truffaut, Godard e Rohmer; o barroco e o teatral de Goya, Artaud, Nelson Rodrigues; a celebração do rural e do popular em convergência com a emergência da revolução chinesa e da experimentação antropofágica inspirada no modernismo de 1922 e na geração posterior de 1930; e a predominância de tomadas externas, inclusive como artifício para economia em equipamentos de iluminação e cenografia.
De São Paulo, da zona (literal) das produtoras e distribuidoras cinematográficas paulistanas, Rua Vitória, Rua do Triunfo e Rua Aurora, veio a radicalização que pretendeu superar a proposta do cinema-novo, já consagrada como movimento artístico.
De olhar pessoal, porém com foco no coletivo e obedecendo aos parâmetros de uma linguagem narrativa acessível, apesar de densa e complexa, cineastas como Ozualdo Candeias, Julio Bressane, Rogério Sganzerla e Miguel Borges partiram para a proposta de experimentalismo total, bagunçando a estrutura narrativa e elegendo o “olhar subjetivo” como princípio estético. O exagero, tanto para o poético quanto o grotesco, enfatizava a necessidade de superar o “olhar reconhecível”; os movimentos de câmera, a proposital precariedade da cenografia e da própria interpretação, a total desobediência aos cânones lingüísticos de uma cinematografia estruturada sobre o diálogo artista/público foram demolidos a partir das bases. Ao mesmo tempo em que se revelava o “fazer cinema” com todas as limitações, buscava-se a consciência do “ver cinema” mediante rupturas e choques interiores, ora mediante a violência, ora mediante o sexo exacerbado, ora mediante a agressão imagética.
Em tudo, esta estética “suja”, nascida e assumida como gueto – marginal - gritava, levando a neurose artaudiana aos últimos limites: olhar cinematográfico (como olhar individual submetido ao olhar político) requisita esforço, de ambos os lados.
E não esquecer Carlos Reichenbach e Walter Hugo Khouri.
E Emílio Fontana. Nenê Bandalho foi o ápice da coragem na transposição de linguagens. Um fenômeno a ser ainda devidamente reavaliado.
E viva Jece Valadão!