Portal Luis Nassif

Falar de movimentos migratórios, independentemente do contexto ou do país a que nos referimos, é como olhar para a face de um cubo, que não pode ser isolada das outras faces que neste caso são a sociologia, a economia, a história, geografia, estatística, política, etc.
O Portugal contemporâneo, (sécs XX e XXI), é sem dúvida marcado pelo êxodo rural, (migração da população para as zonas urbanas), pela imigração, (entrada de pessoas no país) e pela emigração, (saída de pessoas do país).
As oportunidades de vida sempre foram escassas e poucas hipóteses existem nas imensas localidades do interior do país a não ser a agricultura de subsistência e pouco mais. Culpa-se a centralização dos meios em Lisboa e enquanto assim for a população envelhece, as zonas definham e desertificam-se, e os jovens não têm outras hipótese senão fugir, seja para as grandes cidades, ou para o estrangeiro.

Devo afirmar, com conhecimento de causa, que Portugal nunca foi um país próspero, a vida nunca foi fácil e tudo se conquista a pulso, através de muito trabalho e sacríficio. Esta é a realidade para a grande maioria dos portugueses e a entrada para a Comunidade Europeia não a veio melhorar significativamente, ao contrário de uma opinião que já pude ler aqui no portal. Hoje em dia o desemprego já ultrapassou uma taxa de 11%, quase todos os dias os noticiários alertam para novos despedimentos em massa, (a última era de 500 pessoas), empresas que entram em falência, famílias desesperadas que perdem a sua casa por falta de pagamento, um cada vez maior número de famílias que, numa pobreza envergonhada e escondida, procuram ajuda alimentar. É que a fome é um fantasma muito feio e real, vivido por muita gente da geração dos meus avós e dos meus pais na época da ditadura. E é muito duro ver, como eu já vi, octogenários emocionados por pensar que esse fantasma não tenha ficado enterrado no passado.
Hoje o ordenado mínimo nacional é de 450 euros, muito longe dos 1750 no Luxemburgo. No entanto os preços praticados, até nos bens mais essenciais, estão muito longe de serem os mais baixos da Europa. Podemos dizer que recebemos como pobres, mas pagamos como ricos. Para terem a percepção do que valem 450 euros, posso-vos dizer que dá para cobrir a renda de uma casa, embora existam rendas muito mais caras e algumas poucas mais baratas.

Quanto ao número de imigrantes em Portugal, presume-se que entre africanos, brasileiros, de leste, asiáticos e outras ascedências europeias o total ultrapasse já os 5% da população. Na realidade, esse número pode ser bem superior, pois o número de imigrantes ilegais é impossível de ser contabilizado e ultrapassa em grande escala o número dos legalizados.
Se por um lado a diversidade cultural é a verdadeira riqueza do mundo e das nações e, os imigrantes trazem tanta coisa positiva a um país como a sua força de trabalho e dinamismo, o seu conhecimento, a sua perspectiva, também por outro lado a imigração ilegal é um flagelo social que acabará por atingir negativamente os imigrantes, os nativos do país, a economia e todo o estado. Imigração ilegal só é positiva para as máfias internacionais que exploram as pessoas, que as traficam, que abusam delas e as escravizam.
Pessoalmente defendo o modelo australiano de imigração e acho que todos os países do mundo o deveriam adoptar. Para um estrangeiro morar na Austrália este tem que se candidatar e submeter a um processo de selecção. Por exemplo, se você for professor, só o chamam se tiverem uma vaga para professor necessitando ser preenchida e se não houver um australiano para essa mesma vaga. E claro está, cidadão com registo criminal sujo é logo colocado de parte. Mas, no momento em que você é aceite, é recebido com imensas condições. Condições essas que Portugal não pode oferecer à maioria dos portugueses quanto mais ao número assustador que é 1 milhão de imigrantes num universo de 10 milhões de habitantes. Simplesmente não há como dar aquilo que não temos. Como se partilha se não houver o que partilhar?
Acreditem quando vos digo que há imensos imigrantes em Portugal de qualquer origem, que são acarinhados e extremamente admirados pela sua capacidade de trabalho e bom carácter e, que têm acesso às mesmas oportunidades que qualquer português.

Antes de terminar, é necessário focar o ponto da xenofobia e racismo de que tanto somos acusados.
Os portugueses não são revoltados nem alimentam nenhum ódio contra alguém só pela sua raça ou nacionalidade. Somos sim lesados pelos efeitos negativos da imigração ilegal, situações essas que passo a descrever e, que causam medo e o medo é, desde sempre, a raíz das emoções e actos negativos. Por esse motivo é que a grande maioria dos portugueses apoia uma menor abertura das fronteiras e a extradição de imigrantes ilegais.

1º Aumento da criminalidade:

- No meio de tanta gente de bem que escolheu Portugal como destino também o fizeram alguns que não interessam nem ao menino Jesus. Também os criminosos trouxeram novas perspectivas e dinamismo, mas à criminalidade. Temos assistido a um aumento de crimes violentos o que nos assusta profundamente. Sociologicamente, temos assistido ao fenómeno que cada povo tem as suas nuances próprias ao cometer delitos. Os criminosos africanos destacam-se por se juntarem em grupo, comportarem-se como gangues de ghettos, armados, para assim aterrorizarem, agredirem e assaltarem grupos de pessoas em locais como comboios, praias, bairros.
Os criminosos brasileiros são mais interessados por dinheiro, mas igualmente violentos, destacando-se no abuso de imigrantes ilegais seus compatriotas, organização de redes de prostituição, tráfico de drogas e pessoas, (normalmente mulheres brasileiras ingénuas e fragilizadas, ilegais, que acabam prisioneiras num bordel algures), carjacking, raptos e assaltos à mão armada que acabam em homicídio.
Depois temos os criminosos de Leste, que eram uma grande preocupação para as autoridades portuguesas pois desde que a União Soviética se dissolveu, antigos operacionais do KGB, (incrivelmente inteligentes, com formação militar avançada e sem nenhum problema em assassinar alguém, seja quem for), formaram suas próprias máfias e aproveitaram o Tratado de Schengen que abriu as fronteiras entre países da comunidade europeia para se espalharem por toda a Europa.
Como portuguesa, também eu anseio que todos estes indivíduos sejam extraditados e proibidos de entrar no meu país. E creio que é um desejo de pessoa normal, que não nem xenófobo nem racista.


2º Desemprego e diminuição dos direitos dos trabalhadores

Aqui os bandidos são outros. Falo das empresas que lucram com a existência de imigrantes ilegais.
Durante gerações tem-se travado incessantemente uma árdua luta para que o Estado e as empresas reconheçam os direitos dos trabalhadores. É uma luta muitas vezes inglória, onde cada migalhinha conquistada é uma vitória. Vitórias que se perdem com os imigrantes ilegais. Porquê? Porque para agir legalmente o empregador não pode pagar menos que o ordenado mínimo, tem que descontar para a segurança social e para as finanças, tem que ter folgas, férias, subsídio de férias e de natal, tem que ter condições de trabalho, horário definido que não ultrapasse as 40 horas semanais, tem que dar formação, contrato de trabalho, subsídio de alimentação e de transporte. Tem que ter tudo isso.
Com a abundância de ilegais tudo isso vai para o ralo. O ilegal está desesperado, disposto a tudo, a prescindir dos direitos, aceita um ordenado menor que o legal, trabalha mais horas e tudo com um sorriso porque tem medo que o patrão o delate e seja desportado.
Na sua ignorância o imigrante ilegal vem desmoronar o que demorou tanto a ser construído, com sacrifício de tantos. Vem obrigar qualquer um a prescindir dos seus direitos, se quiser trabalhar, porque os patrões, aqueles que não têm escrúpulos, chantageiam as pessoas dizendo: "Se não estás contente azar o teu, arranjo dezenas de imigrantes que façam o trabalho por menos.".

O texto já vai muito longo. Espero não ter ofendido ninguém, mas como já disse estou aqui para descrever a realidade com honestidade e sem pudor.

Cumprimentos a todos, Ana

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Respostas a este tópico

Prezado Paulo Werneck

Permita-me concordar completamente consigo e assinalar a enorme semelhança entre seus pontos de vista e os defendidos pelo Bloco de Esquerda de Portugal, com respeito à questão dos imigrantes ilegais ( http://www.esquerda.net/ ).

Suponho que não fosse a intenção de Ana Maria Chagas, mas o texto dela me passou a impressão de que os estrangeiros inauguraram a criminalidade em Portugal. Talvez a criminalidade objetiva seja bem diferente da percepção que se tem dela. Aqui no Japão em que vivo acontecia isto: muita conversa sobre a criminalidade entre os estrangeiros (curiosamente na boca dos próprios) e as estatísticas da polícia acabaram revelando que os indices de criminalidade eram rigorosamente os mesmos entre japoneses, chineses residentes no Japão, na colônia coreana, brasileira, etc... enfim, coisas do preconceito.
Caríssimos Paulo Werneck e Hermeneuta; Caríssima Maria Dirce; Caríssimos foristas,

Em primeiro lugar, saúdo-vos alegremente e agradeço-vos a participação na discussão por mim criada neste portal. Considero muito estimulante a pluralidade de pontos de vista e a oportunidade que estes criam para um saudável e respeitador debate de ideias.

Em segundo lugar, temo que a prosa não seja tão distante da poesia, no facto em que carrega sempre uma carga de subjectividade, o que pode levar a que o receptor não entenda a mensagem do emissor, tal como este pretendia, originando desta forma alguns mal-entendidos.

Por esse motivo, esta minha resposta aos vossos comentários existe com dois objectivos: esclarecer pontos menos claros e responder aos pontos que os vossos comentários vieram trazer de novo a esta discussão.

Dito isto, vou começar pelos esclarecimentos:

1 - "Não interessa nem ao menino Jesus" é somente uma expressão popular correntemente utilizada, um floreado na linguagem, uma imagem para dar ênfase a uma ideia. Para quem não percebeu é comparável à expressão "ovelha negra". Não tem qualquer cariz de ofensa espiritual, nem pode ser interpretado literalmente, assim como o vosso "show de bola" não significa jogo de futebol, ou "sebo nas canelas" não significa que alguém vai mesmo ensebar as pernas. E neste contexto as "ovelhas negras" são os criminosos, foi a eles que me referi como tal. :)

2 - Não era, nem nunca foi, minha intenção passar a impressão que a criminalidade foi inaugurada em Portugal pelos estrangeiros. Quis sim, tentar transmitir a ideia que é sociologicamente curioso e verdadeiro que cada povo age de forma única quando comete crimes, mas todas as nações, sem excepção alguma, têm os seus criminosos, inclusivé Portugal. Ou seja, os criminosos estrangeiros que vieram para Portugal trouxeram nuances diferentes na forma de praticar os mesmos crimes.
Por exemplo, o fenómeno criminoso do roubo por arrastão, que consiste em um grupo com dezenas ou centenas de malfeitores armados invadirem um espaço com o intuíto de roubarem todos os cidadãos presentes, é muito recente em Portugal e não é um modus operandi dos ladrões portugueses que ainda preferem agir pela calada e com muito menos parceiros. E não se trata de um concurso de popularidade, crime é sempre crime e deve ser encarado com muita seriedade, assim como punido arduamente, indepentemente de quem seja o criminoso.

Espero ter servido para esclarecer. Gostaria de acrescentar que tenho amigos e família de todas as raças, etnias, cores, credos e estatutos sociais, orgulho-me de uma cidadã pró activa que age pelo bem comum e igualdade no meu país, (conheço muito bem o Bloco de Esquerda), mas sou uma pessoa extremamente frontal, o que talvez possa levar alguém a conotar-me com aquilo que não sou. Dito isto, passo aos comentários:

1 - Talvez seja eu agora a tirar elações erradas, mas fiquei com a impressão que a grande maioria dos brasileiros acharia que a atitude mais correcta a ser tomada pelas autoridades portuguesas seria abrir totalmente as fronteiras à entrada de cidadãos estrangeiros, sem impôr qualquer requisito, sem qualquer tipo de controle e, que imediatamente, a qualquer um que entrasse deveria ser concedida a nacionalidade portuguesa, e serem oferecidos os mesmos direitos que são outorgados aos cidadãos nacionais.

Pois bem. Então urge esclarecer um mito.

a) É importante esclarecer que direitos, como o direito ao trabalho e à habitação existem na teoria, nas constituições dos vários países e na declaração dos direitos do Homem. No entanto na prática isso significa que cada país se esforce para que os cidadãos tenham os conhecimentos e as ferramentas necessárias para poderem trabalhar e através da sua remuneração, adquirirem a sua habitação. Mas depende do cidadão ser pró activo na procura de trabalho, mesmo sem garantia de sucesso,e não existe país nenhum do mundo onde os empregadores vão oferecer emprego à porta das pessoas. Igualmente, um cidadão português se quiser a sua casa, tem que pagar por ela, e vai para o olho da rua se a deixar de pagar, tão simples quanto isto. Quero esclarecer isto porque há muita gente que exige uma casa dada, gratuitamente, quando isso não é usufruir dos mesmos direitos de um cidadão português mas sim, querer ser um privilegiado.


b) Eu não discordo da imigração, nunca discordei, como já tinha afirmado no texto em cima, uma nação plural é mais rica. Sou contra é a imigração ilegal, porque acredito que as sociedades precisam de regras para existir harmonia, e é necessário conta, peso e medida para alcançar algo equilibrado em tudo na vida. Como dizem, um copo de vinho tinto à refeição faz bem ao coração, mas se beber a garrafa toda já é um bêbado. ; )

"Portugal facilita a legalização de imigrantes brasileiros no país
Publicado em 11-07-2003

Os imigrantes brasileiros em Portugal sem contrato de trabalho não precisarão de se deslocar ao seu país de origem para obter um visto, podendo fazê-lo em qualquer consulado português, acordaram as autoridades dos dois países.


A medida, que consta do Acordo de Contratação Recíproca, a ser assinado sexta-feira pelas autoridades de Portugal e Brasil - e ao qual a agência Lusa teve acesso -, facilitará a resolução da situação de milhares imigrantes brasileiros em Portugal.

O assinatura do documento, pelos ministros dos Negócios Estrangeiros dos dois países, está integrada na visita de Estado que o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, efectua a Portugal até sábado, dia 12 de Julho.

Actualmente, a nova Lei de Estrangeiros obriga a que os imigrantes entrados em Portugal depois de Novembro de 2001 obtenham um visto de trabalho junto de um consulado português no seu país de origem.

O novo acordo possibilita aos imigrantes brasileiros obter um visto de trabalho em qualquer posto consular português, como por exemplo Vigo e Sevilha, em Espanha, e abrange o seu agregado familiar.

"O facto de um nacional de um dos Estados contratantes se encontrar no território do outro Estado à data da assinatura do presente acordo (11 de Julho de 2003) é considerado razão atendível para a aceitação de um pedido de visto num posto consular de carreira fora da área da sua residência", sublinha o mesmo texto.

O Estado português compromete-se a conceder um visto de trabalho no espaço de 60 dias.

O acordo abrange os nacionais dos dois países que "mediante contratos validados pelos órgãos competentes do Estado receptor, se desloquem ao território deste Estado, por períodos limitados de tempo, para aí desenvolverem uma actividade profissional por conta de outrem", segundo o documento.

As associações de brasileiros em Portugal estimam em cerca de 15 mil os imigrantes brasileiros em situação ilegal que residem no país.

A comunidade brasileira em situação regular é de cerca de 60 mil pessoas.

O texto é «muito favorável às duas partes», disse à Agência Lusa fonte oficial. "
O problema para mim, Ana, é que você criou esse tópico como se fosse se nao uma justificativa, pelo menos uma desculpa para a xenofobia. E nao é...
Cara Anarquista Lúcida,

O que eu defendo acima de tudo é que os criminosos do meu país sejam presos, os criminosos estrangeiros deportados. E sim, os imigrantes legais devem ser inseridos na sociedade com os mesmos direitos dos restantes cidadãos. Atenção direitos, não privilégios. Que tal como nos Estados Unidos da América, a nacionalidade tenha que ser conquistada, merecida não esbanjada. Se isso é xenofobia, (que não é), então força, cada cabeça é livre, assumam como quiserem.

No entanto deixo aqui uma pergunta e uma reflexão sobre racismo e xenofobia.

Um Brasil que hoje é tão acusador, que aponta tanto o dedo aos outros sobre xenofobia e racismo, onde se enquadra a lei de cotas de 1934 de Getúlio Vargas, a tentativa de branqueamento da população, a proibição à entrada de japoneses com medo que estes "poderiam corromper “ainda mais a nossa raça” e que o Brasil poderia ser “mongolizado como foi africanizado” nas palavras de Joaquim Nabuco, onde houve ingerências para impedir a entrada de um grande fluxo de judeus que fugiam da exterminação?

Por curiosidade, a lei de cotas ainda existe?
Nao. Mas a lei que dá aos portugueses a equiparação de direitos com os brasileiros sim (inclusive direito de voto, e de ser funcionário público, no que toca a empregos). E essas "ingerências" no governo de Getúlio nao impediram que o Brasil tivesse recebido um grande número de judeus. Sem falar nos milhoes de portugueses que para cá vieram durante todo o século XX.
Cara Ana Maria

Se é lembrar o facismo, posso dizer que tenho um tio que morreu pilotando um caça na segunda guerra lutando na Itália (Tenente Aviador Luiz Dornelles, 98 missões de combate) e não estava do lado do eixo!

A onde estavam as tropas portuguesas?
Caro Prof. Rogério,

Já andava a pensar fazer uma série de textos para retratar Portugal na época das guerras mundiais e do salazarismo. Como é algo extenso não é para hoje já. Mas para breve, porque é um período interessante, especialmente se acrescentar aos factos históricos, os relatos dos meus avós.
Cara Ana Maria Chagas.

Vou procurar pontualmente rebater algumas de suas críticas e no fim comentar algo que há quase 20 anos tenho na minha consciência e nunca senti necessidade de externar, entretanto achei uma boa oportunidade de fazê-lo.

Primeiro, quanto à falta de prosperidade de Portugal, que alegas no início para talvez justificar a xenofobia portuguesa, hás de convir que não foi por falta de ajuda das colônias portuguesas que esta prosperidade não foi atingida. Não só o Brasil, mas as colônias na Ásia e na África contribuíram para o progresso da Inglaterra. Não errei o país, e como percebo que tu és uma pessoa culta, logo saberás que durante séculos as imensas riquezas que eram mandadas para Portugal, iam automaticamente junto com o vinho do Porto para a Inglaterra. Ora, pois, se há alguém responsável por vossa ausência de riqueza sois vós mesmos.

Durante um século após a independência brasileira, hordas de cidadãos portugueses foram acolhidos aqui na nossa pátria, sem que fosse adotado nenhum método australiano ou austríaco de imigração, se fossemos deixar só Doutores e Professores portugueses ingressar no Brasil, não ingressaria quase ninguém. Demos aos portugueses status de cidadãos brasileiros, lembro até que um Português atingiu a presidência da Câmara dos Deputados sem abrir mão de sua cidadania portuguesa, ou seja, um português não era para o Povo Brasileiro um imigrante, era um brasileiro de fala estranha.

Quando da libertação das colônias africanas portuguesas os “retornados”, como assim vocês os denominavam, tinham MELHOR ACOLHIMENTO no Brasil do que em Portugal, e a maior parte que veio para o nosso país não se arrependeu disto.

Os portugueses que vinham para o Brasil sempre tiveram liberdade de trabalhar e NUNCA, NUNCA, nos meus cinqüenta e tantos anos de vida vi um brasileiro colocar um português como responsável pelo seu desemprego. Para nós taxas de desemprego de 10% eram são comuns em nossa história, mas jamais ouvi ou ouvirás da boca de um brasileiro este tipo de comentário. Somos um povo brincalhão (eu particularmente não tanto) que gostamos de nos divertir inclusive com piadas estúpidas de portugueses, mas somos antes de mais nada um povo extremamente hospitaleiro e cordial com os estrangeiros.

Agora vai o meu desabafo, durante séculos o Brasil foi abrigo de portugueses, desde grandes homens até degredados e criminosos, recebemos estes homens que atingiram posições de destaque ou as páginas policiais. Os criminosos portugueses que aqui estão ou estiveram eram criminosos como qualquer brasileiro, não os quassificamos ou os separamos por habilidades criminosas como diretamente tu fazes. Eles ficam na vala comum em que qualquer criminoso deve estar.

Depois destes séculos de acolhimento, Portugal ingressa na Comunidade Européia, neste momento aquele país irmão vira suas costas a empobrecida e inflacionada nação Brasileira, tornam-se Europeus como nunca tinha sido reconhecidos, atingem uma posição que jamais imaginavam e o principal, recebem polpudos subsídios da Comunidade Européia. Somente neste momento começa a xenofobia do povo português, pois para ser xenófobo precisa-se sentir superior.

Anos após isto as coisas se agravam, com a entrada dos países do leste na CCE as torneiras dos subsídios fecham-se e mais uma vez me parece que o povo português não aproveitou, desculpe, nós não temos culpa disto.

Tratar mal um brasileiro em Portugal é antes de mais nada uma total e completa forma de ingratidão, poderia dizer de forma mais ríspida que os portugueses “comeram e viraram o prato”.

Acho simplesmente inadmissível, imperdoável e total falta de senso histórico qualquer tentativa de desqualificar o povo brasileiro. Não admito, simplesmente, não admito qualquer palavra nesta direção, a contabilidade entre Brasil e Portugal está infinitamente positiva para o lado brasileiro e qualquer discurso xenófobo ou racista é antes de tudo uma ignorância histórica de tudo que ocorreu.

Atenciosamente
Prof. Eng. Rogério Maestri
Bravos, bravos, bravos, bravos, bravos. Falou e disse.
Caro Prof. Eng. Rogério Maestri,

Também o aplaudo e agradeço o seu comentário. Foi extremamente salutar. Como já disse anteriormente, o diálogo e o debate lapida as mentes, tornando-as mais cintilantes. E muito mais se aprende com pontos de vista opostos e diversos do que uma mesma opinião. Independentemente das nossas opiniões serem ou não contrárias, nutro uma imensa consideração por vós todos, que debatem comigo estas questões quentes, sempre com respeito, mas sem papas na língua. E, como isso me agrada!

O senhor tem idade para ser meu pai. Ainda não tinha dito, mas tenho trinta anos. Digo-o agora porque vai ser relevante para esta minha exposição.

Abro-lhe então o meu coração, para dizer que tivera eu ciência para montar uma máquina do tempo, não hesitaria em retroceder quinhentos anos para embarcar nas caravelas dos Descobrimentos. Porque foi uma missão também de carácter espiritual, que deu novos mundos ao mundo, logo também ampliou a noção de espírito e de capacidade humana.
Gostaria de ter explorado o mundo nessa aventura de descoberta. No entanto, tivesse eu poderes para tal e teria recusado o primeiro escravo oferecido pelas tribos africanas, não espalhando pelo mundo o crime hediondo que é a escravatura; nunca teria permitido a morte de um único índio brasileiro nem recolhido riquezas; apenas teria deixado um único português em terras tucanas que teria como única missão recolher ensinamentos junto das tribos nativas.
Teria mantido secreta a origem desses novos paraísos descobertos para que nenhuma outra nação viesse injuriar e macular as esplendorosas savanas africanas e a enorme nação amazónica.
Acredito que se os próprios homens e mulheres de há quinhentos anos estiverem presentes e conscientes do que é hoje o mundo, não teriam muita certeza, para não dizer nenhuma, da validade das suas acções.
Deles carrego uma herança rica e pesada. Passado quinhentos anos, eu que nasci há trinta, sou tratada como colonizadora, esclavagista, genocida, ladra de riquezas que nunca vi nem das quais desfrutei. Passados quinhentos anos sou obrigada a carregar a doença, o estigma que é este síndroma do colonizador.
Passados quinhentos anos querem eu olhe para o chão, encolha os ombros e engula para dentro as palavras, porque qualquer coisa que eu diga será conotada com xenofobia, com racismo, com colonialismo, com superioridade.
Esse síndroma do colonizador me corrói e me revolta e eu me recuso a padecer desse mal. Apenas sou responsável das minhas acções desde o momento em que nasci e não admito que venham pedir contas, exigir agradecimentos e submissão, obrigar a carregar uma cruz que não é minha, que dê as boas vindas a gente com más intenções da mesma forma que o faço com as pessoas de bem. Porque o faço. Senhores, desejam também que eu entregue logo a minha carteira na mão dos bandidos para poupar trabalho?!
Existem concerteza portugueses que tem que estar gratos ao Brasil e não são outros que não os que se encontram aí a trabalhar, ou que já foram imigrantes ou têm ou já tiveram familiares imigrantes no Brasil. Esses sim, devem agradecer a hospitalidade, assim como qualquer imigrante o deve fazer ao país que o acolhe. E não há maior e melhor agradecimento que ser um cidadão pró activo, produtivo e honesto.
Amo o meu país e pauto-me pelas noções de fraternidade, igualdade e responsabilidade. Amo ainda mais o meu país pela forma como a minha geração o imagina evoluir para algo mais espiritual, respeitador, humanitário e livre.
Choca-me apanhar conversas no ar, de imigrantes que incitam outros a enganar o Estado português para conseguirem o máximo de regalias, como vingança pelo colonialismo. Nesse dia finji que não ouvi, talvez não o devesse ter feito. Estava toldada por esta doença da sociedade que ainda sofre com os remorsos de ter sido colonialista e, que por isso não se dá suficientemente ao respeito, que se torna permissiva e tolerante demais com aqueles que são apanhados e sem vergonha dizem que mataram, roubaram, burlaram, violaram e violentaram porque são vítimas de racismo, e isso justifica toda e qualquer falha de carácter.
Choca-me quando são daltónicos ao que digo de bom e agradável, que a realidade do meu país seja um facto irrelevante, (os portugueses que se danem mais os seus problemas sociais), e que somente o soa menos proveitoso ressalte e aí sobeje motivo para meter o braço no ar e gritar "xenófoba, xenófoba".
Este é o meu grito do Ipiranga. Deconheço do que padecerei fatalmente até ao momento da minha morte, mas não será mais dessa síndrome do colonizador. Já chega de pagar por pecados que não cometi.
Existe uma profecia milenar portuguesa que diz: "quem nasce em Portugal é por missão ou castigo". Eu sou um ser humano livre pensador e estou aqui por missão, por castigo nunca mais.

Cumprimentos a todos. Ana
Cara Ana

Chamando-te pelo primeiro nome talvez as distâncias física e de geração que nos separam diminuam um pouco. Pela forma que escreveste já imaginavas a idade que tinhas, e realmente tenho idade para ser seu pai, o meu filho mais velho fará dentro de menos de um mês 29 anos, logo tu acertaste na comparação. Foi importante a confirmação da idade, pois talvez na diferença dela esteja a origem de algumas discordâncias.

A primeira visão que tenho de Portugal data de 1972, quando ainda não eras nascida, entretanto desde aquela data nunca vi o povo português como colonizador. Da primeira impressão guardo mais como um povo oprimido do que opressor. Senti-me irmãos, pois dos dois lados do Atlântico governos autoritários tentavam impedir a nossa alegria e a nossa liberdade. Talvez nas semanas que passei em Portugal, vi coisas que para ti são somente relatos do passado, pessoas ensimesmadas e fechadas. Nós aqui no Brasil a ditadura não tinha tido tempo para quebrar por completo o nosso ímpeto, não porque não desejassem, mas sim porque ainda não tinham tido tempo para isto, mas via nos comentários curtos e comedidos o resultado dos longos anos da opressão que os lusitanos sofriam. Logo Ana, eu era um jovem que olhava o povo português muito mais com solidariedade do que com qualquer rancor. Se carregares um pesado fardo pesado de 500 anos de colonialismo, certamente desta pesada herança, poucas gramas somos responsáveis.

Falaste certo, da riqueza conquistada ou roubada, nada para ti sobrou, porém deverias cultuar outra riqueza que não precisa ser guardada em cofre para o ladrão não roubar, a riqueza da alma representada pela solidariedade. Deve procurar herdar de teus antepassados, não o espírito colonialista ou repressor, mas sim a ternura e a tolerância.

Sabes de que é feito o espírito brasileiro, da fusão entre a boa alma portuguesa e dos escravos que aqui chegaram. Estes últimos, trazidos ao estalar da chibata, não perderam, apesar de tudo uma característica que é muito grata ao povo brasileiro, a alegria e a solidariedade, este tesouro que ladrão não rouba é muito mais importante que nenhum Europeu nos poderia dar.

Não guardo ódio ou rancor ao povo português, mas sentimentos de revolta com a ingratidão recente deste povo que considerava irmão. Não é da época das caravelas que trago lembranças, é de um passado recente que acolhíamos o bom povo português para logo na primeira oportunidade nos virarem as costas, pois novos amigos chegavam.

Hoje quando a crise chega a todos, com desemprego aqui e acolá, legalizamos todos os nossos irmãos latino-americanos, chineses, coreanos, palestinos e outros para compartilharem de nossa luta contra a pobreza e a miséria. E Ana dos muitos atos de nosso Presidente, este foi dos poucos que não escutei nem li, nem da direita nem da esquerda, nenhuma reação contra esta partilha do pão, que para nós é caro e ainda faz falta para muito de nós.

Quanto à máquina do tempo, não precisa montar, pois certamente caso quiseres desbravar este Brasil, verás que há muitas coisas a ser descoberta e muita aventura a realizar, e posso te garantir, serás recebida com os braços abertos.
Minha filha (porque temos idades para isso)
Acho que a livre pensadora caiu numa armadilha que ela mesma armou, mas pode aproveitar a oportunidade para se libertar de uma amarra do pensamento que não assenta bem numa... livre pensadora.
Por favor, releia o que você acabou de escrever. Perceba o destaque que você dá à questão da culpa pessoal/individual em meio a uma discussão impessoal/coletiva de temas que pertencem ao domínio da História.
Que seria esta ''síndrome do colonizador''? Uma patologia individual estruturada sobre um sentimento irremediável de culpa pessoal? Para que serve isso? O indivíduo afetado pela síndrome do colonizador ajoelha no milho cada vez que vê um negro? E daí?
É essa perspectiva que você renega? Ótimo! Ela não resolve coisa nenhuma, mesmo.
A abordagem conseqüente se dá em outro nível, bem mais complexo.
Trata-se de reconhecer que o primeiro mundo conclamava recentemente os países em desenvolvimento a aceitar a globalização como se fosse o manjar dos deuses, e que este manjar é preparado com a livre circulação de mercadorias e capitais, mas o cozinheiro deve tomar muito cuidado com a livre circulação de pessoas. Esta, nem pensar! Para prevenir o erro, a América do Norte e a Europa construiram muralhas. Para as pessoas, bem entendido. Para as commodities baratas, para remessas de lucros, para resultados de especulações financeiras, a muralha não existe. Alguma coisa está fora da ordem, na nova ordem mundial. Portanto este discurso, o da globalização como caminho para o paraíso na Terra, deve ser denunciado como empulhação, porque é disso que se trata. Não se trata de uma atitude pessoal, de uma opção moral, de estilo, mas de uma questão política.
Quem não foi colonizado? Quem não foi colonizador?
Se colocamos a discussão numa perspectiva mais ampla, perde sentido a abordagem individual, e ganhamos terreno para conversar sobre o que pode realmente mudar a vida das pessoas. Perde-se também, e eu acho esta a melhor parte, a possibilidade de se apontar uma cultura qualquer como objetivamente superior a qualquer outra. É este aspecto que liquida com o racismo/xenofobia.
Posso olhar para os palácios de Sintra e me deliciar com seu bom-gosto, enaltecedor da minha/nossa humanidade, sem me esquecer que aquilo também pode ser visto como produto de roubo. Você não? Não pode assumir que tudo neste mundo tem um lado luminoso e um lado obscuro?
um abraço fraterno, de um ítalo-brasileiro que vive no Japão

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